'Eu quero que minha história sirva de exemplo'

Alice usou droga pela 1ª vez aos 11 anos. Hoje aos 16, vive com o filho de 2 em um orfanato e faz curso de chef de cozinha

PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h05

Alice, de 16 anos, cresceu em Passo das Pedras, numa região que ganhou o apelido de Pedrinha. A mãe, o pai e os irmãos se drogavam. Ela também seguiu esse caminho. Aos 11 anos, fumou maconha. "Depois foi tudo: pedra, farinha, cheirinho da loló." Passou a morar na rua. Engravidou aos 14 do namorado de 22. Comemorou. "Eu sempre quis ser mãe."

Nem grávida saiu da rua. Nem grávida deixou as drogas. Entrou em desespero quando, aos dois meses de gestação, o pai de seu filho foi assassinado por dívida com traficantes. Ela viu o companheiro morrer.

Usou crack até o nascimento do filho, prematuro de 7 meses. Em uma noite, dormia em uma casa abandonada quando a polícia chegou. "Eles batiam nas costas. Eu falava que estava grávida. A barriga doía, mas eles não paravam. Achei que o bebê fosse morrer", conta.

Alice percebeu que o filho não vingaria se permanecesse nas ruas. Procurou o conselho tutelar, pediu para ser internada. Henrique nasceu logo depois. "Sem nenhum defeito", faz questão de dizer.

Recomeço. Os dois moram no Lar Esperança, orfanato e também centro de atendimento social, em que crianças do violento bairro Mário Quintana têm atividades, no contraturno escolar.

Alice já viu um homem ser assassinado no terreno do orfanato, quando fugia de traficantes. De vez em quando, enfrenta toques de recolher, quando há enfrentamentos de gangues rivais.

Hoje, ela hoje faz curso de chef de cozinha. Ganha R$ 500 por mês e tem R$ 1 mil na poupança, para montar sua casa. O maior medo: perder o filho para a adoção. "Quero que minha história sirva de exemplo. Eu falo muito para as meninas daqui não fazerem coisa errada." / C.T.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.