'Eu não tenho raiva, eu perdoo ele. E o amo'

Do Maranhão: veja a entrevista com Sandra Monteiro, que teve filhos com o pai e ficou 16 anos isolada

Entrevista com

Wilson Lima, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2010 | 00h00

SÃO LUÍS - Exames divulgados ontem confirmaram que o lavrador José Agostinho Bispo Pereira, de 54 anos, abusou sexualmente de uma filha-neta de 5 anos e 8 meses. Ele foi preso na terça em Pinheiro, a 340 km de São Luís, acusado de abusar sexualmente da filha Sandra Maria Monteiro, de 28 anos, com quem teve filhos, e mantê-la em cárcere privado por 16 anos. Anteontem, a perícia já havia comprovado abuso de outra filha-neta, de 8 anos.

Após ser abusada pelo pai, Sandra Maria Monteiro disse ontem ao Estado que já consegue sorrir e se disse aliviada por "um novo momento". A fala é cândida e simples, lembrando a inocência de uma criança de 5 anos. Até ontem, ela nunca havia falado com alguém pelo telefone. Após um isolamento de 16 anos, sem acesso a serviços básicos como saúde e educação e vivendo em condições insalubres, em uma casa de taipa, Sandra destaca que agora tem "uma nova vida".

Agora que tudo acabou, qual é o seu sentimento?

Estou livre sabe? Tenho apenas de agradecer a Deus. Estou aliviada porque tudo acabou bem.

Quando começou essa relação com o seu pai?

Eu tinha uns 12 anos, acho. Ele que me procurava. Quando ele me procurava, eu tentava fugir, mas não conseguia. Eu nunca procurei ele. Achava errado. Ele dizia para eu não falar para ninguém o que acontecia. Eu tinha medo de que ele fizesse alguma coisa.

E o sentimento entre vocês? Não era estranho ele "procurar" (buscar sexo com) a própria filha?

Era estranho, mas eu não tinha muito o que fazer. Nunca soube o que fazer. Também tinha os filhos. Eu tinha medo de que ele me abandonasse com os meninos.

Todos são dele?

Olha, dos sete, seis são dele.

E agora? Qual o sentimento que você tem pelo seu pai?

Olha, eu não tenho raiva dele, não. Eu perdoo ele.

Mas você o ama? Como pai ou como marido?

Ora, como pai. Amo, sim. Ele é meu pai.

O que vai fazer da vida?

Só quero cuidar dos meus filhos e ser feliz. Ter uma família de verdade.

Você ainda pensa em casar ou em ter outro companheiro?

Não penso nisso agora. Mas, se Deus mandar um, vou achar bom.

 

ESPECIALISTA:

4 perguntas para o psiquiatra Paulo César Sampaio

1. O que leva uma pessoa a cometer ações como a do caso do Maranhão?

São decorrência de um transtorno mental e de caráter. Ele tem consciência que é crime, mas não tem condições de controlar. Tanto sabe que é errado que esconde as vítimas.

2. O fato de as vítimas serem filha e netos aumenta a gravidade?

É preciso analisar o caso, mas é certo que ele tem um transtorno ligado à sexualidade. Grande parte dos abusos ocorre mesmo dentro de casa. Isso porque o agressor acha que corre menos risco do que se fizer com um estranho, que pode denunciá-lo. Com os filhos, tem controle maior.

3. O ambiente e a cultura local contribuem?

O ambiente isolado, mais rude, contribui porque as pessoas não têm tanta informação. Podem até achar errado, mas não têm a dimensão da gravidade para denunciar o crime.

4. Como se trata de um transtorno, o que deveria ser feito com o agressor?

Ele será preso e não vai receber o tratamento adequado. Deve ter um bom comportamento, porque esses agressores normalmente são dóceis no trato e, por isso, deve sair cedo da prisão. Mas está errado. Essa pessoa deveria ser mantida sob custódia, para ser tratada. Mas o Estado não oferece isso.

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