'Eu não desejo isso para ninguém'

Acusado de tráfico, Marcelo (nome fictício), de 16 anos, ficou 20 dias em uma unidade de internação provisória do Complexo Brás, no centro de São Paulo, em 2012, enquanto o juiz decidia sobre o seu caso. Depois, em um abrigo municipal, contou sobre as agressões. Questionada, a presidente da Fundação Casa, Berenice Giannella, disse que maus-tratos são passíveis de punição.

O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h01

"A unidade em que eu fiquei devia ter quase umas 200 pessoas. No meu quarto, tinha 50 camas, mas eram 80 pessoas. Trinta dormiam no chão.

A coisa que eu mais detestei foram os funcionários. Qualquer coisa eles reclamam, querem bater na gente. Quando alguém faz alguma coisa errada, eles não 'arrastam' só ela, 'arrastam' é o quarto todo. 'Arrastar' é dar castigo, punição. Tinha um moleque que inventou de fazer greve de fome, ele e mais três. Eles apanharam, mas todo o quarto teve de pagar. Eles pedem pra gente sentar com as pernas cruzadas, um atrás do outro, colado no cara da frente. Tem de ficar com a cabeça baixa e não pode olhar para o lado. E fica assim por 1h, 1h30. E isso doía muito, mesmo, pode acreditar. Todo dia a gente tinha de sentar desse jeito. Quando você vai tomar banho, 'paga' uns dez minutos antes de entrar no chuveiro. Dizem que é pra ser organizado. Mas acho que é só para mostrar que a Fundação Casa não é brincadeira. Vi várias vezes baterem nos moleques, mas eu prefiro apanhar do que ter de pagar. Não desejo isso para ninguém." / R.B. e T.D.

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