'Eu fujo e ele fica solto? Eu me sinto num cativeiro'

As novas varas de violência doméstica devem atender casos como o da operadora de telemarketing Elaine Cristina de Almeida Delgado. Aos 28 anos, mãe de um menino de 3, sua vida se transformou em um inferno depois que o marido passou a agredi-la. O primeiro ataque "mais sério" foi em novembro de 2008, quando ela se recusou a manter relações sexuais com o marido. Desde então, já são 12 boletins de ocorrência, além de dezenas de idas e vindas ao fórum e à delegacia do bairro, sem solução eficaz. "A Lei Maria da Penha é muito bonita, mas, para mim, ela ainda continua só no papel", desabafa.

, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2010 | 00h00

O caso de Elaine é exemplo das dificuldades e da burocracia enfrentadas por vítimas de violência doméstica que resolvem denunciar os maridos. Ela conta que, na primeira vez em que foi espancada, a Polícia Civil estava em greve. "O delegado disse que não poderia prendê-lo por causa da paralisação."

Cinco meses depois do episódio, Elaine e o marido reataram o casamento. Mas não demorou para que voltasse a agredi-la. Preso em flagrante, o homem passou dois dias detido. Saiu sob a condição de manter distância de 50 metros da mulher. "Ele nunca cumpriu", relata Elaine.

Com medo, ela e o filho se refugiaram por alguns dias na Casa Viviane, um núcleo de defesa da mulher. Uma semana depois, quando os dois já haviam voltado para o apartamento em que vivem em Guaianases, na zona leste de São Paulo, o marido exigiu que Elaine e o filho fossem com ele até sua casa. "Fui violentada na frente do menino."

Na quinta-feira, a Justiça negou o pedido de prisão feito pela polícia contra seu marido. "O promotor me orientou a fugir ou a ir para um abrigo para mostrar para a Justiça que as medidas restritivas não surtiram efeito, mas eu discordei", diz a vítima. "Eu fujo e ele fica solto?"

Nos últimos meses, Elaine vive tentando se esconder. Sua rotina se resume a sair para trabalhar, voltar e se trancar com o filho. "Eu me sinto presa num cativeiro." / B.T e M.G.

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