Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Etiqueta em braile deixa moda mais acessível

Fornecedora de confecções criou versão após pesquisa com associação de cegos

Valéria França, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2011 | 00h00

A inclusão social está desembarcando na moda brasileira. Uma etiqueta de roupa especial, com informações do produto em braile, foi lançada ontem na Première Brasil, maior salão Têxtil da América Latina. A iniciativa parte de uma das grandes empresas do setor, a Haco, que durante dois anos pesquisou a funcionalidade e viabilidade do produto com a Associação dos Cegos do Vale do Itajaí (Acevali).

A empresa arredondou a ideia, que já pipocava no mercado entre pequenos confeccionistas, possibilitando agora sua aplicação em grande escala. Isso significa que grupos com representação no mercado nacional, como uma Hering, têm meios de incorporá-lo. Ainda não há lei que obrigue as empresas a adotar a etiqueta em braile - somente projetos em discussão no Congresso (leia mais ao lado) -, mas ter a infraestrutura para que isso aconteça é um começo. "Trata-se de um jeito informal para que a etiqueta vire um padrão", diz Geraldo Lima, professor da Faculdade de Moda da Universidade Anhembi Morumbi.

Em 2003, Lima pesquisou durante quase um ano em institutos como o Dorina Nowill e o Padre Chico sobre as necessidades do consumidor cego. A partir daí, numa atitude pioneira, incluiu em todas as peças de sua confecção, a Urânio, uma etiqueta emborrachada em braile que descreve a cor do produto. "Mesmo quem não enxerga consegue perceber informações como textura e modelo. E se você adiciona muita informação, a etiqueta fica enorme, porque o braile ocupa mais espaço do que as letras do nosso alfabeto."

Modelo. A etiqueta da Haco pretende ser um de tamanho regular. O confeccionista escolhe o material - tecido, borracha e tag de papel craft - e as informações que quer adicionar em braile. Mas há outros tipos no mercado. A grife Virgemaria criou uma transparente, que vem com um adesivo em PVC, para que o cliente possa aplicá-la na parte da roupa que quiser. "Ainda colocamos na frente um bordado para ajudar o cego a distinguir um lado do outro."

A Virgemaria fez o teste com a etiqueta no ano passado. "Fiquei convencida de que o investimento valia a pena quando uma cliente que não enxergava vibrou de felicidade com a novidade", conta Ana Pasternak, de 38 anos, estilista da marca. "Ela disse que agora poderia, pela primeira vez, comprar roupa sem a ajuda de uma amiga ou parente. Representava sua independência."

Acessibilidade. "Não é apenas o deficiente que fica de fora da moda", diz Ana. "Há muitas pessoas que não se encaixam no padrão do mercado, seja pelo peso ou pela altura." No ateliê da grife, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, os modelos são desenvolvidos com base na estética e na funcionalidade. Camisas com botão de pressão, uso de elástico em calças e tantos outros detalhes que facilitam o uso por pessoas que tenham qualquer tipo de deficiência.

Até pontos de vendas descolados, como a Galeria Mundo Mix, nos Jardins, embarcaram na ideia da roupa acessível. Há um mês, as prateleiras da loja receberam a nova coleção Easy Put, resultado da parceria entre o Instituto Mara Gabrilli e a marca Hey!U. A coleção começou com camisetas (de R$ 35 a R$ 50), vendidas com duas etiquetas, uma normal de tecido e outra em braile, de papel, com o tamanho, a cor e a estampa do modelo.

Como o papel é destacável do produto, as mesmas informações foram colocadas na barra, com strass. "O total arrecadado vai para o Instituto Mara Gabrilli desenvolver uma coleção de roupas acessíveis", diz Beto Lago, dono da Galeria Mundo Mix. "Virei parceiro do projeto porque pretendo que a loja vire referência para todos os movimentos da moda. E a inclusão social é um deles", afirma.

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Seja preciso ao indicar locais. Não diga que está logo ali

Nas lojas, os vendedores costumam se dirigir ao acompanhante do deficiente visual, como se ele não pudesse decidir. Os cegos reclamam disso

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