Etapa social de UPPs

Passo seguinte à ocupação de morro do Rio emperra na chegada de serviços públicos

FELIPE WERNECK , MÁRCIA VIEIRA / RIO , O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2011 | 03h01

"Nem tão bem quanto gostaríamos, nem tão mal como antes." A frase é carregada de mágoa, mas desprovida de rancor. José Lins Filho, de 58 anos, nascido e criado no alto do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, zona norte do Rio, resume a decepção dos moradores da favela. Um ano após o lançamento da UPP Social, as melhorias do programa que é o passo seguinte à ocupação policial do morro chegam em doses homeopáticas.

A promessa da prefeitura é levar às favelas pacificadas os serviços públicos das áreas de ocupação formal, mas a avaliação geral nessas comunidades é que o ritmo está muito lento. O projeto - não por acaso batizado com a sigla da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) - prevê investimentos de R$ 1,1 bilhão até 2012.

Das 12 favelas onde a UPP Social se diz presente, a situação mais crítica é a do Macacos, mas até no Morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul - a mais antiga das 17 UPPs, com quase 3 anos -, ainda corre esgoto a céu aberto.Nesse item, a vida real das comunidades mudou muito pouco.

Em maio, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, reclamou da demora na chegada de investimentos sociais às UPPs. "Nada sobrevive só com segurança. É hora de investimentos sociais", disse, na ocasião.

Lixo. A questão do lixo é crucial. O secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, Carlos Roberto Osório, diz que a prefeitura investiu R$ 9 milhões em uma logística de coleta específica para favelas, que tem custo mais elevado. Inaugurada no Complexo do Alemão, por enquanto só chegou a duas UPPs (Borel e Andaraí).

No alto do Morro da Babilônia, no Leme, zona sul, o lixão cresce a cada dia, mas o problema foi pouco discutido no último Fórum da UPP Social, na visão de especialistas - as mordidas de cachorro na comunidade da Babilônia viraram o centro do debate em determinado momento. "Os temas mais importantes não foram abordados", diz Sebastian Archer, da ONG SOS Leme. Para ele, a questão do lixo depende de regras claras do poder público para "a questão da educação não virar desculpa".

O Alemão é a exceção nesse ponto, após investimentos de R$ 725 milhões ao longo de três anos, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento. Nesse morro, a coleta de lixo é quase tão boa quanto no asfalto e não há esgoto nas ruas.

Além de um teleférico que liga o morro à estação de trem, a comunidade também recebeu escola, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e posto de Justiça para intermediar conflitos.

"Nosso grande azar foi a invasão no Alemão. Despejaram tudo lá, até cinema, e esqueceram da gente", comenta Lins, o morador do Morro dos Macacos.

Lá, o cenário é outro. A UPP foi instalada em novembro, no dia seguinte à invasão das forças de segurança no Alemão. "Prometeram creche, clínica da família, escola técnica, UPA, mas até agora, nada. Passamos de menina dos olhos a patinho feito."

O Instituto Pereira Passos, responsável pela UPP Social, comprometeu-se em dezembro de 2010 que até março começariam as benfeitorias, mas em agosto anunciou que uma mudança administrativa da UPP Social - a competência deixou de ser do Estado e passou ao município - provocou uma "rearticulação".

Serviços privados. No Macacos, onde um dos sonhos da comunidade é a implementação de escola técnica, o que andou rápido foi a retirada do "gatonet", a TV a cabo clandestina. "Enquanto o Bope entrava nos becos atrás dos traficantes, o pessoal das empresas de TV por assinatura punha a mesa para fechar negócio", lembra Lins.

No Morro do Turano, na Tijuca, zona norte, um ano de UPP, os primeiros serviços também foram privados. "A Sky (TV paga) e a Embratel (telefonia) entraram com a pacificação. A Light (luz) e a Cedae (água e esgoto) não estão querendo ganhar dinheiro aqui. O pessoal quer pagar, até para poder cobrar, mas tem de ser uma taxa social", diz Socorro de Maria Pereira Silva, de 32 anos, presidente de associação de moradores do morro. Como Lins, ela destaca que há "vontade de resolver o problema". "Melhorou, mas ainda não é suficiente."

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