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Estudos de ciclista morta em SP explicam por que mulheres andam menos de bicicleta

Marina Kohler Harkot abordou em mestrado como mulheres são minoria entre ciclistas, embora a bicicleta tenha uma forte ligação com feminismo

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 10h07

A socióloga Marina Kohler Harkot, que morreu atropelada no domingo, defendia mudanças na mobilidade urbana. Entre elas estava o uso da bicicleta como política pública de educação, com a prática incentivada desde a infância, o planejamento da infraestrutura cicloviária que considere os deslocamentos cotidianos dentro dos bairros (em direção a serviços, como educação e alimentação, por exemplo) e o incentivo à implementação de bicicletários em locais como estações de transporte, equipamentos públicos e áreas comerciais.

Em seu mestrado, com o título “A bicicleta e as mulheres: Mobilidade ativa, gênero e desigualdades socioterritoriais em São Paulo”, abordou como as mulheres são minoria entre os ciclistas, embora a bicicleta tenha uma forte ligação com o feminismo, desde o movimento sufragista norte-americano. Com o estudo, concluiu que a menor inclusão feminina se deve a questões socioculturais e ao machismo estrutural, além dos problemas de infraestrutura e mobilidade.

A pesquisadora de 28 anos, que foi atropelada por um carro enquanto pedalava na avenida Paulo VI, em São Paulo, defendia a ideia de que cidades inclusivas para as mulheres ciclistas são inclusivas para todos os ciclistas. "Qual ciclista não gosta de pedalar se sentindo seguro e respeitado pelos veículos a sua volta?”, questionava-se em uma apresentação realizada em um evento dois anos atrás.

"São muitos os fatores que podem ajudar a explicar o porquê de haver menos mulheres pedalando. Há pesquisas que indicam que essa diferença pode vir desde a infância, quando as meninas são desincentivadas a praticar atividades físicas ‘arriscadas’, tal como pedalar, ao contrário dos meninos. Ou, ainda, a relação entre mulheres e o trabalho doméstico, que determinou muito de como elas usam e ocupam a cidade. O importante é: explicar isso não é tarefa fácil e depende (muito!) do contexto no qual as mulheres, ciclistas ou não, estão inseridas”, explicou.

Dois exemplos de boas práticas que citava era de um projeto social na Holanda, o Mama Agatha, que ensina mulheres imigrantes a andar de bicicleta, como forma de auxílio para se integrar à sociedade local. Outro é do estado indiano de Bihar, que apostou no uso da bicicleta como solução para diminuir a evasão escolar.

2.110 ciclistas morreram no Estado de SP desde 2015

Dados da plataforma Infosiga SP, do Governo do Estado, apontam que 2.110 ciclistas morreram no trânsito paulista entre o primeiro dia de janeiro de 2015 e o último dia de setembro de 2020. Na capital, esse número foi de 173 óbitos.

Somente neste ano, até setembro, 297 pessoas morreram ao andar de bicicleta no Estado, o que representa um pequeno aumento em relação ao mesmo período de 2019, com 295 óbitos. 

O maior registro de casos neste ano é no primeiro trimestre, que não enfrentou os efeitos da quarentena, com um acumulado de 113 mortes em bicicleta, o mais alto registrado para esse intervalo no levantamento histórico, iniciado em 2015.

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