Estudantes de Direito aplicam pindura e vão parar na delegacia

Dia do Pindura comemora a fundação dos cursos jurídicos no Brasil, pelo imperador Dom Pedro I

Andressa Zanandrea, Jornal da Tarde

07 de agosto de 2007 | 10h30

Um grupo de 15 calouros de Direito chegou por volta das 8h30 de segunda-feira a um dos restaurantes mais caros de São Paulo, o Skye, no Hotel Unique. Pedem pratos como mignon com pimentas verdes, nhoque de mandioquinha, risoto e pizza. Na hora da conta, a surpresa para os funcionários: os alunos anunciam a tradicional pindura. A conta, R$ 1.012. Os estudantes disseram que queriam pagar os 10% do garçom e as bebidas, que custaram R$ 180,00, e apresentaram um ofício do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade do Largo de São Francisco. O documento explica a tradição secular do pindura e parabeniza o restaurante por ter exercido seu papel na perpetuação da tradição. "Eles tentaram um acordo e ofereceram 30% de desconto na conta, mas não aceitamos", disse o estudante Rafael Soares, de 18 anos. Aí não teve jeito: a polícia foi chamada e eles foram levados ao 15º Distrito Policial, no Itaim Bibi. Na saída a caminho da delegacia, o grupo, que disse ter tentado ser discreto até então, saiu cantando: "Garçom tira a conta da mesa, e põe um sorriso no rosto. Seria muita avareza cobrar no 11 de agosto". Ao mesmo tempo, não muito longe dali, no Shopping Eldorado, dois outros grupos tentaram fazer a pindura no Applebee's. A polícia foi chamada e eles também foram levados ao 15º DP. Numa mesa estavam sete estudantes do quarto ano do Largo de São Francisco. Eles "pinduraram" a conta de R$ 350,00. Em outra mesa, três alunos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) "pinduraram" R$ 150,00. "Deixamos os 10%, o dinheiro da bebida e o ofício. Eles pegaram, mas voltaram atrás", disse o estudante Ivan Cid, de 19 anos. "Pedimos costela e sobremesa, e dividimos em três!", contou o aluno da FGV. O grupo de quartanistas da USP cantou a musiquinha, chamou o gerente e se prontificou a pagar as bebidas e os 10%, o que daria uns R$ 60,00. Mas também não teve jeito: os dez foram levados à delegacia. Apesar de ser a terceira vez na delegacia - apenas no ano passado o restaurante aceitou a "pindura" -, o estudante Ricardo Melo, de 25 anos, não deixa de comemorar a data. "Infelizmente chegou nesse nível por causa das outras faculdades", condena. Na delegacia, os estudantes apresentaram o dinheiro, mostrando que tinham condições de pagar a conta - requisito para a aplicação da "pindura". No grupo dos calouros havia dois menores, que tiveram de esperar os responsáveis para ser liberados. Agentes do Grupo de Operações Especiais (GOE) chegaram a ser chamados para "conter o ânimo" dos estudantes na delegacia. O Dia do Pindura comemora a fundação dos cursos jurídicos no Brasil, pelo imperador Dom Pedro I, em 11 de agosto de 1827. A prática teria surgido da oferta de donos de restaurantes que convidavam os acadêmicos a comer por conta da casa, em comemoração à data. Com o passar do tempo e a escassez de convites, os estudantes passaram a ir até os restaurantes por conta própria para comer de graça.

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