Estudante volta a SP, após 2 meses detida nos EUA

'Foram os piores dias da minha vida', diz jovem de 16 anos barrada pela imigração ao desembarcar em Miami em novembro

TIAGO DANTAS, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2013 | 02h04

A ausência da família, a distância de casa, a convivência com estrangeiros e a rotina pesada de estudos e atividades em um abrigo para adolescentes nos Estados Unidos levaram a estudante paulistana Verônica Letícia da Silva, de 16 anos, a viver em quase dois meses o que classificou de "os piores dias" de sua vida. Ontem, a jovem detida em Miami após problemas na imigração finalmente voltou para casa.

Já em São Paulo, mas ainda dentro do avião, por volta das 8h45, Verônica diz ter passado os últimos momentos de tristeza da viagem, que começou em 26 de novembro. "Estava com medo de sair do avião. Estava quase chorando porque comecei a pensar que minha mãe não estaria lá, que ninguém tinha avisado minha família para me buscar", disse a estudante. A apreensão durou pouco. A balconista Alexsandra Aparecida da Silva, de 36 anos, mãe de Verônica, a aguardava na imigração.

Minutos depois, às 9h15, a adolescente era recebida calorosamente pelo padrasto, pelos tios e por primas na área de desembarque internacional do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Uma nova festa foi preparada pelos amigos de Verônica na frente da casa da menina, no Rio Pequeno, zona oeste da capital. Cerca de 30 pessoas a aguardavam, por volta das 11h20, usando camisetas brancas com sua foto.

Diferença. A chegada ao Brasil foi bem diferente da situação que a estudante encontrou ao desembarcar no aeroporto de Miami no ano passado. "Quando cheguei lá, pegaram meu visto, ficaram fazendo perguntas e me levaram para uma sala", lembra. "Nessa sala, (os agentes da imigração) começaram a fazer muitas perguntas: por que eu estava lá, se eu tenho família aqui (no Brasil), família lá (nos Estados Unidos). Nisso, eles foram falando mais coisas, mais coisas, e eu fiquei dez horas lá."

Verônica foi revistada, teve de mostrar tudo o que levava na bagagem e foi questionada se não estava indo para os Estados Unidos trabalhar ilegalmente. "Falei que estava a passeio, mas não consegui entender direito porque não falava inglês, não falava espanhol. Eles (os americanos) estavam ficando nervosos com isso porque eles queriam que eu desse uma informação que eu não podia responder." No fim da noite, ela foi levada ao abrigo Children's Village.

A garota saiu do Brasil com o passaporte e o visto americano em dia. Ela não levou, porém, uma carta na qual sua mãe concedia temporariamente sua guarda para a tia-avó Marli Volpenhein. O documento é requisito para menores de idade que viajam sem os pais ou responsáveis para os Estados Unidos. Outro problema foi a previsão de tempo da viagem. A adolescente havia programado a volta para 26 de maio - seis meses é o tempo máximo de permanência concedido para turistas no país.

Detida. No abrigo, Verônica dividia o quarto com 11 meninas latino-americanas, que, segundo ela, tinham tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos. A companhia delas fez a brasileira aprender a falar espanhol e a voltar com um sotaque que surpreendeu a família. "Fazia tempo que não falava português. Já estava me esquecendo." A jovem acordava às 6h, limpava o quarto, ia para a escola e voltava às 18h para o dormitório. O abrigo programava alguns passeios, mas a paulistana não era autorizada a participar de todos. A jovem pôde visitar um museu e assistir a uma apresentação do Cirque du Soleil. "Por mais que as pessoas tentassem me tratar bem (no abrigo), nada substitui o amor da minha mãe e o carinho da minha família."

Enquanto aguardava o dia em que poderia voltar para casa, Verônica diz ter passado Natal, ano-novo e aniversário, em 16 de janeiro, "chorando, chorando e chorando". Embora diga que desde dezembro queria voltar para a casa da mãe, a estudante comunicou oficialmente esse desejo ao Consulado do Brasil em Miami em 10 de janeiro. Ela teria de passar por uma audiência na Corte de Imigração no dia 31, mas sua volta acabou sendo antecipada. "Ficar quase dois meses longe da minha filha foi muito doloroso, mas agora chega de choro. Ganhei um presente: minha filha de volta", afirmou Alexsandra, antes de beijar o rosto da menina.

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