Estudante, que diz ser Jesus, era viciado

Suspeito teria procurado igreja para se livrar de dependência

Bruno Paes Manso, Josmar Jozino, Luiz Guilherme Gerbelli e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

13 Março 2010 | 00h00

HISTÓRICO - Nunes tem passagem por porte de entorpecentes

O universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, queria sequestrar o cartunista Glauco, segundo parentes da vítima contaram ao chegar à Delegacia Seccional de Osasco. Frequentador da Igreja Céu de Maria, fundada pelo cartunista, Nunes queria que Glauco o acompanhasse até a casa de sua mãe, no Pacaembu, zona oeste da capital, para dizer a ela que o rapaz era Jesus Cristo.

O pai do estudante, o comerciante Carlos Gricchi Nunes, disse à Polícia Civil que o filho precisa de tratamento. "Ele requer cuidados especiais. Não o vi depois do que aconteceu, nem sei com quem ele estava."

Segundo a polícia, Nunes era dependente de drogas e procurou a igreja para se livrar do vício da cocaína e da maconha. Ele tem uma passagem por porte de entorpecentes. Em 2007, ingressou em Artes Visuais na Faculdade Belas Artes, mas decidiu trancar a matrícula.

Filho de pais separados e de classe média, Nunes, de acordo com a polícia, era amigo de Raoni, filho do cartunista, desde a infância. Cresceu entre o Alto de Pinheiros e a Vila Madalena, bairros nobres da zona oeste. O rapaz não ia à casa de Glauco havia oito meses. Ontem à noite, ele procurou o amigo e queria que Glauco o ajudasse a se livrar das drogas.

A mãe de Nunes, Valéria Sundfeld, mora num prédio no Alto de Pinheiros. Funcionários do edifício disseram que ela estava muito agitada ontem. Afirmaram que Valéria tem problemas psicológicos e toma remédio controlado. Acrescentaram ainda que Nunes morou com a mãe até novembro do ano passado, quando se mudou para a casa da avó, na Vila Mariana, zona sul. Policiais civis conversaram com um vizinho das vítimas e apuraram que Nunes foi à residência de Glauco acompanhado por dois amigos.

VILA ASTRAL

O local do crime, onde vive a família de Glauco, fica ao lado da Igreja Céu de Maria, no Morro de Santa Fé, ao lado do Pico do Jaraguá. Batizada de Vila Astral, era uma comunidade onde vivem outros daimistas.

Nunes ia muito pouco à igreja e tinha o perfil parecido ao de outros jovens, que muitas vezes confundem a religião com diversão. "O Daime está voltado para a cura e para o autoconhecimento. Exige muita disciplina daqueles que tentam se curar ou mudar. Quem quer diversão não volta, porque os rituais são longos. Eu não me recordo desse garoto fisicamente na igreja. Só se lembram dele algumas pessoas que ficavam mais atentas durante as cerimônias ao comportamento dos jovens", diz Orlando Cardoso, primo de Glauco.

Criada por Glauco em 1993, em uma casa no Butantã, a Céu de Maria se mudou para o Morro de Santa Fé no ano 2000. É muito procurada por pessoas que querem se livrar de vícios de álcool e de cocaína. O próprio Glauco, depois de frequentar o Daime, conseguiu se livrar do vício de cocaína.

Anualmente, passam pela igreja cerca de 12 mil pessoas. Antes de participar das cerimônias e tomar o chá, feito à base de ayahuasca, integrantes da igreja entrevistam os interessados para se certificarem de que eles não tomam remédios de tarja preta ou que não passam por tratamentos psiquiátricos.

A reação ao chá depende do estado de espírito daqueles que o ingerem. Normalmente, as pessoas têm visões que podem ser alegres, iluminadas, mas também aparecem imagens escuras e sombrias. Casos de frequentadores que pensam ser Jesus Cristo ou outros santos da Igreja Católica não são incomuns, uma vez que o Daime é baseado nos princípios do Cristianismo.

Depois de tomar o chá, o ritual é acompanhado por hinos que, segundo os integrantes da igreja, ajudam a passar a mensagem religiosa que vai nortear o frequentador a encontrar o caminho que busca. Na Céu de Maria, durante os hinos, Glauco tocava sanfona. Como era um dos fundadores, ficava junto a outras sete pessoas na estrela de oito pontas que ficava no centro do prédio. Os demais participantes acompanhavam o ritual no salão octogonal, perfilados, ouvindo os hinos.

"Como líder espiritual, Glauco não dava conselhos. Ele acreditava que os hinos eram capazes de passar a mensagem àqueles que participavam do ritual", explica a fotógrafa Janete Longo. Mas Glauco se orgulhava da capacidade que a igreja tinha para curar. Quando abriu a igreja no Butantã, a casa em que começaram era o lugar onde alguns meninos de rua usavam drogas. Dois deles entraram para a igreja. Mudaram de vida e acompanharam a trajetória espiritual do cartunista.

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