Estrangeiros lotam os Bed & Breakfasts ''à carioca''

Modelo de hospedagem é aconchegante e não tem complicações de hotel. Gringos adoram

Márcia Vieira / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

O brasileiro ainda não está muito acostumado ao sistema. Mesmo assim, o velho esquema Bed & Breakfast, tipo de hospedagem comum na Europa em que um morador aluga um ou dois quartos da casa para turistas, cresce no Rio. Na internet, em sites de turismo internacional, são dezenas de ofertas. Em Santa Teresa, "vendida" como uma espécie de Montmartre carioca, numa referência ao boêmio bairro parisiense cortado por ladeiras, uma associação chega a reunir 30 opções de "Cama e Café".

O Trip Advisor (www.tripadvisor.com), badalado site de turismo, lista outros 50 B&B na cidade. As ofertas são variadas. De suítes em coberturas sofisticadas a apartamentos mais acanhados. A maioria fica na zona sul, área nobre da cidade.

O aumento da oferta não atrai turistas brasileiros. "Pelo menos 90% dos hóspedes são estrangeiros", conta o analista de sistemas João Valentim, de 38 anos. Há seis anos, ele aluga dois quartos no Castelo Valentim, prédio de 1879, construído pelo seu avô, no alto de Santa Teresa. O apartamento, no quarto andar, tem uma vista de 270 graus da cidade. Da varanda é possível ver a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo, o Parque do Flamengo com jardins de Burle Marx e a Serra dos Órgãos.

A diária, nesta época do ano, é de R$ 220 o casal. Dá direito ao quarto com frigobar, acesso à internet e um farto café da manhã. No carnaval e no réveillon, o preço dobra. "Os hóspedes têm a cabeça muito boa. Eles querem um tipo de turismo especial. Não querem a frieza de um hotel."

Conforto. Essa é a base da filosofia do Bed & Breakfast. "Cama confortável, banho bom, café da manhã caprichado e um atendimento atencioso são importantes", ensina João Vergara, pioneiro no sistema. Há sete anos, Vergara e dois amigos recém-saídos da universidade perceberam um mercado promissor e abriram o grupo Cama e Café, primeira rede do setor do Brasil.

No início, tiveram de bater na porta dos moradores de Santa Teresa, propondo a parceria. Agora, os moradores pedem para se cadastrar. "O turista que escolhe esse tipo de hospedagem não faz uma visita contemplativa, não vai só aos pontos turísticos. Ele quer viver a cidade, quer se misturar com os cariocas", explica Vergara.

A fama do Cama e Café veio rápido. Indicada pelo respeitado guia Lonely Planet como um dos cinco melhores lugares para se hospedar no Rio, a rede expandiu seus domínios e chegou também a Olinda, em Pernambuco. O grupo divulga o serviço nas melhores revistas de turismo mundo afora.

Arpoador. Há anfitriões que preferem a carreira solo. Colocam um site na internet e graças ao boca-a-boca formam uma clientela fiel. Foi o caminho encontrado por Ínia Schoenwaelder, dona de um charmoso apartamento encravado entre Copacabana e Ipanema, a dois minutos da Praia do Arpoador.

Ínia já conhecia o sistema graças ao périplo que fez nos últimos 40 anos: morou na França, em Portugal, nos Estados Unidos e na Alemanha. Há seis anos, com o marido alemão, resolveu ficar de vez no Rio. "Já não tenho mais nenhum dia livre para fevereiro de 2011", diz, orgulhosa.

São dois quartos, um deles suíte com banheiro decorado com azulejos portugueses. Coisa fina. A diária é em dólar. Vai de US$ 100 a US$ 140 (R$ 180 a R$ 250, aproximadamente).

No depoimento dos visitantes do Trip Advisor, coleciona elogios. O sucesso foi conquistado ao longo de seis anos de bons serviços prestados a europeus, americanos, australianos. "Nunca tive problema com os estrangeiros. São ótimos. Entendem as regras, são gentis", avalia Ínia.

Já os brasileiros não gozam do mesmo prestígio. "Eles não estão acostumados ao sistema. Começam sempre pedindo desconto. É uma choradeira. Dizem que vão fazer o depósito de reserva. Ficam enrolando, não fazem e também não aparecem na data combinada. Prefiro evitar."

Não é uma reclamação solitária. Há quatro anos, a artista plástica Ana Durães abre sua casa, um solar em Santa Teresa de 690 metros quadrados construído em 1860, para o esquema Cama e Café. Nunca teve problemas com os hóspedes, mas reclama dos brasileiros.

"Geralmente, eles querem exigir mais do que o combinado. Não entendem que não estão em um hotel formal. Não tem serviço de bar, por exemplo." Mas Ana continua recebendo brasileiros, sem preconceitos.

A casa lembra uma fazenda. Tem fogão a lenha, passarinhos cantando no quintal, jardim florido e uma bucólica varanda. Como boa mineira, Ana oferece pão de queijo com café para o lanche da tarde. No dia da chegada, uma caipirinha brinda as boas-vindas. "Gosto de receber. É um prazer ter pessoas em casa."

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