‘Estou anestesiado’, diz pedreiro que perdeu a casa em incêndio

Moradores da Favela do Piolho começaram a remover escombros; 600 famílias se dividem entre aturdidas e revoltadas

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2014 | 03h00


SÃO PAULO - Quando chegou em casa, o pedreiro João Santos de Jesus, de 54 anos, nem imaginava que lhe restaria apenas a roupa do corpo. Desempregado, havia decidido ajudar uma vizinha a construir um quartinho no barraco dela, do outro lado da rua. “Terminei ontem e ontem mesmo o fogo levou”, fala com os olhos apontados para o nada. As casas de 600 famílias foram destruídas no incêndio que atingiu no domingo a Favela do Piolho, na zona sul de São Paulo. 

E de pouco adiantaria manter os olhos concentrados em algo. A essa hora, os óculos bifocais viraram um punhado de arame retorcido e vidro espatifado pelo calor. “Não enxergo é nada sem ele”, conta. Depois, toda aquela madeira queimada, o cheiro de fumaça, a fuligem empapada n’água, os bombeiros zanzando de lá para cá e as três vigas de concreto que se mantiveram de pé - “sim, moço, minha casa era aqui, bem aqui, nessas vigas” -, nada fazia Jesus entender o que havia ocorrido.

“Perdi três televisões, DVD, guarda-roupa cheio de roupa. Estou sem serviço. Minha mulher faz faxina. Ela tinha acabado de comprar a feira, eu não tinha nem jantado. Aí começou a gritaria, o corre-corre. Se eu tenho para onde ir? Sei não. Estou anestesiado ainda, sabe?”

A exemplo de seu João, cerca de 600 famílias se dividem entre aturdidas e revoltadas. O número de desabrigados é uma estimativa da Defesa Civil Municipal. O incêndio destruiu 80% dos barracos, segundo os bombeiros, cujo trabalho de rescaldo se estendeu até ontem.

Com pá e enxada, os moradores começaram a remover escombros por volta das 6 horas. A maioria nem sequer tinha dormido. Para suportar a fumaça, a própria camisa virava máscara. Entre si, discutiam a remarcação do terreno: quanto mais cedo terminarem, mais cedo voltariam.

Uma igreja vizinha tem acolhido cerca de 60 pessoas e oferecido três refeições. Os demais desabrigados terminam se alojando em calçadas das imediações. Desde a madrugada, a Defesa Civil forneceu colchão, cobertor, kit de higiene e cesta básica. Às ajudas, seu João dá pouca trela. “Eu não tenho nem fogão, vou cozinhar onde?”

Mais conteúdo sobre:
Favela do PiolhoSão Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.