Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

‘Estado precisa reagir contra o PCC’, diz procurador

Procurador que investigou a facção no início dos anos 2000 lança livro nesta quinta sobre o crescimento da organização criminosa, sobre a qual diz ver avanço recente da atuação no Paraguai e na Bolívia

Entrevista com

Márcio Sérgio Christino

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2017 | 18h27

SÃO PAULO - O torneio de futebol na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no interior de São Paulo, em 1993, apresentou o Primeiro Comando da Capital ao mundo, ao menos ao mundo penitenciário paulista. A competição convocada pelos fundadores da facção serviria como o meio perfeito para eles se livrarem de rivais locais e para que iniciassem a expansão para outras penitenciárias do Estado. Usando os mesmos meios de dominação e violência característicos dos rivais, o PCC se escondia sob o lema da defesa dos direitos dos detentos para alavancar o seu desenvolvimento, testado com sucesso em rebeliões coordenadas como as que aconteceram em 1999, 2002 e 2006. No meio desse caminho, intrigas, “golpes” e organização marcaram o modelo de negócios criminosos da facção, que tem hoje como expoente Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. De Taubaté, a organização há muito deixou seu aspecto interiorano para, em 2017, ter forte atuação em países como Paraguai e Bolívia, consolidando a sua principal fonte de renda no que já é chamado de cartel sulamericano: o tráfico de cocaína. O livro Laços de Sangue - A história secreta do PCC vai da origem ao funcionamento atual da organização para detalhar como ela funcionou e como conseguiu se impor ao Estado, sofrendo derrotas ocasionais, mas se reerguendo com demonstrações de força. De autoria do procurador de Justiça do Ministério Público paulista Márcio Sérgio Christino e do jornalista Claudio Tognolli, a publicação será lançada nesta quinta-feira, 9, com a mensagem de que as instituições e governos precisam reagir para enfrentar a força crescente do PCC, uma ameaça que permanece viva e cada vez mais forte quase 25 anos depois da sua primeira demonstração de poder. A seguir, leia a entrevista que Christino concedeu ao Estado nesta semana:

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O PCC se tornou uma marca conhecida em todo o País pelas sucessivas demonstrações de coordenação de detentos em São Paulo e por ter exportado seu modelo de negócios criminosos para o País. Que história secreta é essa que é vendida no título do livro?

Todo mundo fala que o PCC é uma organização conhecida, mas esse nível de informação é muito superficial. Ninguém tem uma noção exata e precisa de como começou e se desenvolveu e como resultou naquilo que é hoje. Nem eles mesmo sabiam onde isso acabaria dando. O início deles é sempre referido às mortes durante o torneio de futebol em 1993, mas isso não é completamente verdadeiro. Há indícios de que dois anos antes eles já estavam se organizando. Aquele momento, em 1993, foi quando eles se apresentaram como uma entidade organizada com nome e função. Isso não surgiu do nada. De lá para cá, houve crescimento e uma série de conflitos internos e externos que resultaram na morte de todos os fundadores originais, exceto de um: José Márcio Felício, o Geleião, que está numa penitenciária federal. 

Durante a sua história, o PCC usa o slogan de “Paz, Justiça e Liberdade” para tentar legitimar a sua atuação como representante da massa carcerária, como uma entidade anti-opressão. O que o livro mostra, no entanto, é que a violência e a opressão contra companheiros de detenção estão na raiz da tomada e consolidação do poder da facção, não é isso? 

Quais crimes que eles mais praticaram até hoje? Homicídios. De quem? De presos. A organização que diz lutar pelos interesses dos presos, querendo Paz, Justiça e Liberdade, não pode começar atuando justamente na eliminação dos outros presos. Em vez de “Paz, Justiça e Liberdade”, o correto seria “Guerra, Morte e Dominação”. Se você não seguir as regras, você será punido. A punição é a morte.

Dentre os fundadores, só há um vivo, e o núcleo que hoje controla a facção é outro, encabeçado por Marcola. Como houve essa mudança?

De 1993 a 1999, eles passam um período de confrontação com o Estado, com resgates, pressão no sistema penitenciário. Em 1999 e 2000, acontecem rebeliões em Taubaté e dois dos fundadores são executados. A morte desses dois fundadores significa o fim do poder daquela linhagem inicial e a ascensão de uma nova liderança. Daí surgem outros líderes como o Gegê do Mangue, o Gulu, o Marcola, que não estavam na formação original. Agora eles ascendem ao poder. 

O que ajuda a entender a expansão do PCC no País?

O PCC se aproveitou de um vácuo que existia na América do Sul, especialmente no Brasil e ocupou esse espaço. Como não havia antagonistas, cresceu com facilidade. 

É icônico a série de ataques em 2006. Por que eles não têm optado novamente por essa estratégia? 

Eles não buscam a atenção e se puderem negar que fazem parte da facção, eles negarão. Essa é a estratégia. Por esse motivo, não vemos mais ataques. E isso deve seguir até o momento que eles sofram uma afronta direta, sendo atingidos em algum interesse primordial.

Em mais de uma oportunidade, o senhor fala no livro que o Estado agiu de forma covarde ao atender pedidos da facção para fazer cessar rebeliões, por exemplo. Qual o papel do Estado, da polícia ao Judiciário, na expansão da facção?

Se o Estado fosse perfeito, não existiria facção, mas também não teria problema na Saúde e Educação. O Estado não é perfeito. Houve momentos de combate efetivo, mas houve erros também. Penso que dada a expansão deles, o Estado deveria se projetar para o futuro. Hoje é fácil falar, olhando para trás. Hoje, ainda temos dificuldades no que cabe ao Poder Executivo e também ao Legislativo, que não permite, por exemplo, o isolamento. Como vamos parar uma liderança se não podemos isolá-la? Essa é uma questão que o Estado tem que se debruçar para chegar a uma conclusão e a alguma medida mais eficaz. 

O ano de 2017 começou com centenas de mortes relacionadas a briga entre facções, do PCC com o Comando Vermelho e núcleos regionais. Conseguimos entender melhor essa situação agora? 

Vejo tudo como um reflexo da morte do Rafaat (Jorge Rafaat, morto na fronteira do Brasil com o Paraguai em junho de 2016). Isso gerou o estabelecimento da força do PCC na rota da Bolívia ao Brasil, passando pelo Paraguai, e a quase um monopólio nos negócios do tráfico de cocaína. Quase um monopólio porque a rota alternativa é a do Rio Solimões, dominada agora pela Família do Norte, que se impôs ante o PCC no Amazonas. Com fornecedor próprio, a facção tem força e recursos próprios. 

A situação indica que o PCC terá ainda mais força no futuro?

Precisamos de uma reação do Estado, e deve envolver não só São paulo, mas outros Estados, pensando ainda em um sistema de cooperação internacional com Paraguai e Bolívia para que possamos atuar na causa, na origem. Em outra medida, precisamos pensar a forma como queremos combater o tráfico hoje, entendo o crime na sua integralidade. O que há hoje são empresas do crime, com gerentes e soldados, não há mais o tráfico romântico. O PCC já se tornou um cartel internacional. A situação brasileira não é confortável. No Rio, o que vemos acontecer hoje tem paralelo com o que aconteceu no México. O Brasil está chegando a um estado crítico em alguns pontos e há necessidade de um empenho nacional e internacional para abordar essa questão. 

Laços de Sangue - A história secreta do PCC. Editora Matrix, 248 páginas. R$ 44,90

Trechos

Sentando sobre o corpo inerte de Garcia, Geleião olhava a ação do grupo. Seguia entediado enquanto tragava seu cigarro - algo fora das regras, já que num presídio de segurança máxima não era permitido fumar no pátio. Temia-se que um preso usasse o cigarro para queimar o outro. Cesinha reclamou com ele. Afinal, Garcia havia morrido rápido demais, sem tempo de ‘zoada’. Esse tipo de coreografia, ali, era inusual: corpos, antes de darem o último suspiro, devem tecer um balé bizarro, desconjuntando-se como um boneco de trapo na boca de um cão. Deixaram os corpos caídos e foram para o centro da quadra. Sabiam o que viria depois

Com o vulto alcançado pelo PCC é difiícil compreender como o Estado não percebeu a ascensão e o crescimento do grupo. Talvez até soubesse que um grupo se avolumava, mas não tinha ideia do poder de fogo dessa organização, de sua representação dentro do sistema prisional, até porque, até então, a referência que se tinha era apenas a das quadrilhas que existiam foram do sistema e se reproduziam dentro das casas de detenção, quando seus integrantes eram presos todos juntos. 

O PCC apresentou uma estrutura, uma ideia completamente diversa, e, de certa forma, também uma ideologia. Talvez não correspondesse àquilo que realmente diziam, mas eles se apresentavam como representantes da massa carcerária. Para esse tipo de organização o Estado ainda não estava preparado e, por isso, relutava em admitir que esse movimento estivesse acontecendo.” 

"Depois de ascender à liderança, o vaidoso Marcola, o Playboy, almejou mais. Ele queria ser o líder do PCC. Mas que maneira ele neutralizaria Cesinha e Geleião? Ele virou um informante - foi ele quem entregou para a polícia os números dos telefones usados pelo Zé Márcio e por Cesinha. Foi ele também quem indicou a existência de centrais telefônicas. É preciso esclarecer que, paralelamente a essa estratégia de Marcola, de neutralizar Geleião e Cesinha, tornando-se um informante do sistema, o sistema também tomava decisões para conter os dois, que eram fortes lideranças dentro do PCC, mais fortes que Marcola naquele momento. (...) Pelos telefones que Marcola havia fornecido, por meio de sua advogada na época, Ana Olivatto - assassinada tempos depois - usados por Geleião e Cesunha, chegou-se às centrais. E elas iriam revelar o que os membros do PCC estavam tramando. Foi um grande passo no combate à organização."

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