Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Estado investiga gastos de ex-diretor do Instituto Butantã

Entre despesas, que somam R$ 900 mil, estão passagens em classe executiva e refeições em badalados restaurantes

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2017 | 03h00

Atualizado às 16h22.

SÃO PAULO - A Corregedoria-Geral da Administração (CGA) do Estado de São Paulo abriu investigação para analisar gastos de R$ 900 mil do ex-diretor do Instituto Butantã Jorge Kalil com viagens e cartão corporativo, de 2014 a 2016. Entre as despesas estão passagens aéreas em classe executiva e refeições em badalados restaurantes no Brasil e no mundo. O diretor afirma que todos os gastos ocorreram no período de trabalho, quando frequentemente tinha de participar de congressos fora do País e convidar pesquisadores estrangeiros para jantares de representação.

Renomado especialista na área de imunologia, Kalil ocupava a diretoria da instituição desde 2012. No mês de fevereiro, ele foi afastado do cargo após o ex-presidente da Fundação Butantã André Franco Montoro Filho pedir demissão do cargo e acusar Kalil de má gestão. As contas do instituto são alvo de apuração também no Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Possíveis excessos nas despesas de diretores do Instituto fizeram a nova direção do Butantã determinar, na segunda-feira, 30, o cancelamento de todos os cartões corporativos de servidores da instituição. A medida é válida a partir desta quinta-feira, 1º.

O Estado teve acesso aos documentos em análise pela Corregedoria referentes às despesas de Kalil nos últimos três anos. Somente com viagens em 2016 foram gastos R$ 402,7 mil, o dobro do valor registrado nos dois anos anteriores (R$ 201,3 mil em 2015 e R$ 158,8 mil em 2014). Já com o cartão corporativo, usado geralmente para pagar hospedagem, refeições e transporte em eventos científicos ou reuniões, Kalil gastou R$ 70,6 mil no ano passado e outros R$ 66,4 mil entre os anos de 2014 e 2015.

No que se refere às passagens aéreas, há pelo menos quatro delas que custaram ao Instituto cerca de R$ 30 mil cada, como o trecho entre São Paulo e Melbourne, na Austrália, para onde Kalil viajou em agosto do ano passado para o Congresso Mundial de Imunologia – com um bilhete de classe executiva no valor de R$ 31,9 mil.

Há ainda na documentação analisada pela CGA recibos de despesas em hotéis de Nova York e Paris, onde uma diária custa cerca de R$ 2 mil.

Nos gastos com alimentação, o ex-diretor apresentou notas de restaurantes famosos de São Paulo como Figueira Rubayat, Tre Bicchieri e Barbacoa. Neste último, foi registrada a maior despesa com refeições nos três anos: R$ 2,8 mil em um rodízio de carnes para 15 pessoas.

Apuração. A CGA afirmou que recebeu, em março, ampla documentação da Secretaria Estadual da Saúde com a prestação de contas do Instituto Butantã. Confirmou que entre os tópicos em análise estão despesas com passagens aéreas, hospedagem, alimentação e serviço de táxi, mas disse não poder adiantar nenhum detalhe sobre o andamento da apuração para não atrapalhar as investigações.

Kalil alega trabalho e aval de fundação para despesas

O ex-diretor do Instituto Butantã Jorge Kalil afirmou ao Estado que todas as despesas em análise pela CGA e pelo TCE são legais, estavam relacionadas ao trabalho e foram aprovadas pelo então presidente da Fundação Butantã, André Franco Montoro Filho.

De acordo com Kalil, os gastos com viagens no ano passado foram altos por causa do agravamento dos surtos de dengue e zika, o que exigiu sua participação em diversos eventos científicos no exterior.

“Havia reuniões importantes e tínhamos de comprar as passagens com pouca antecedência, o que tornava tudo mais caro”, disse ele, que ainda ressaltou que a aquisição de bilhetes em classe executiva era permitida para diretores do IB em viagens com duração superior a 6 horas. “Muitas vezes, a gente tinha de chegar ao local e ir direto trabalhar. Precisávamos de um mínimo de conforto.”

Sobre a hospedagem em Nova York, o imunologista afirma que ocorreu no mesmo hotel onde era realizado o evento e que as diárias estavam mais altas no período por causa de um feriado local.

Sobre as despesas com alimentação, o ex-diretor afirmou que frequentemente recebia delegações estrangeiras interessadas nas pesquisas do Butantã e as visitas incluíam convites do IB para almoços ou jantares, caso da despesa no restaurante Barbacoa.

Kalil afirma que seus compromissos internacionais e encontros com pesquisadores estrangeiros trouxeram mais investimentos e visibilidade internacional ao Butantã. “O faturamento do instituto passou de R$ 250 milhões a R$ 1,6 bilhão na minha gestão. Estão fazendo essas investigações, mas eu nem sequer fui notificado dessas apurações. Isso é uma tentativa de justificar a minha demissão, tendo em vista que, até agora, não acharam nada de irregular na minha gestão”, afirmou Kalil.

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