Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Estado de SP tem 16 acidentes de trânsito com feridos por hora

Cidade de São Paulo teve 20.392 casos com vítimas não fatais nos primeiros oito meses do ano; 35% das ocorrências na capital foram no fim de semana

Priscila Mengue, Paula Felix e Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2019 | 12h43

SÃO PAULO - O Estado de São Paulo registrou uma média de 393 acidentes de trânsito com vítimas não fatais por dia(16 por hora) entre janeiro e agosto deste ano. Isso significa 94,3 mil casos em vias municipais e rodovias nos primeiros oito meses do ano, segundo  dados do Infosiga SP divulgados nesta quinta-feira, 19. Em média, a cada 27 ocorrências com feridos, é registrada uma com vítima fatal.

A partir deste mês, o Estado divulgará também dados de acidentes com vítimas não fatais, enquanto antes o Infosiga abrangia apenas óbitos. Em agosto, 478 pessoas morreram no trânsito paulista, um aumento de 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado. O aumento se estende especialmente entre motociclistas (170 em vez dos 137 do agosto passado) e pedestres (128 contra 121 do mesmo período de 2018). Do total das ocorrências com vítimas não fatais, 79% ocorreram em vias municipais (21% em rodovias), das quais 38%  foram de noite ou na madrugada.

Na cidade de São Paulo, foram registrados 20.392  acidentes com vítimas não fatais de janeiro a agosto, o que significa uma média de 36 acidentes com vítimas não fatais para cada morte no trânsito. Segundo o levantamento, 35% das ocorrências foram no fim de semana e 59% durante o dia e a tarde. 

Ainda sobre a capital, 64% dos acidentes envolveram automóveis, seguido de motocicletas (54%), pedestres (16%), ônibus (7%), caminhão (4%) e bicicleta (2%). Os principais tipos de acidente são: colisão contra outro veículo (56%), atropelamento (17%) e choque contra objetos fixos (6%). O horário de pico de acidentes é na faixa das 18 horas, enquanto o menor número de registros é às 3 horas da madrugada. 

Os dados reúnem boletins de ocorrência das Polícias Civil, Militar, Rodoviária Estadual e Rodoviária Federal, além do Corpo de Bombeiros. No caso de acidentes com vítimas não fatais, o levantamento traz informações a partir de janeiro deste ano.

Secretário de governo e vice-governador, Rodrigo Garcia (DEM) diz que a ampliação do banco de dados faz parte de um “processo importante de prevenção”. Segundo ele, as informações estão sendo utilizadas para mapear os pontos que precisam de medidas para redução de acidentes. Dentre as previstas, estão melhorias na sinalização e iluminação, instalação de lombofaixas e mudanças no sistema semafórico, tudo em conjunto com prefeituras.

No caso das rodovias, o secretário diz que 60 pontos que precisam de intervenção estão mapeados. Ele comenta, ainda, que o objetivo do Estado é diminuir o número de acidentes, porém, como a base de dados é nova, não será definida uma meta de redução.

Coordenadora do Programa Respeito à Vida, Silvia Lisboa afirma que o levantamento representa o primeiro da série histórica, motivo pelo qual não pode ser comparado com outras bases de dados. Segundo afirma, porém, há previsão para aperfeiçoar a qualidade das informações disponíveis - indicando, por exemplo, a gravidade das lesões - e cruzá-las com dados de outras fontes, como dos equipamentos de Saúde e do Instituto Médico Legal (IML).

"Até então, a gente só tinha o dado de óbito, mas a partir de hoje há dados de ocorrências, então a primeira obervação a ser feita é que há um volume muito maior. Isso permite usar a informação com maior inteligência", diz. "São números alarmantes mas, comparados com outros Estados, São Paulo está bem ranqueado."

Para Silvia, a maior concentração de acidentes em vias municipais estaria relacionada ao volume maior de frota circulando, comparado às rodovias. "Esses espaços precisam receber tratamentos diferentes", afirma. Nas estradas, o governo estadual teria elencado 60 pontos prioritários, com projetos de melhoria em elaboração.

Já nos municípios, onde a engenharia de trânsito é de responsabilidade da respectiva prefeitura, o Estado aposta na assinatura de convênios que permitem repasse de verbas do Detran para ações de segurança viária. Segundo ela, o objetivo é aumentar para 304 o números de municípios participantes. Hoje, há 101 convênios assinados e 8,5 mil projetos em fase de implantação.

"É importante essa parceria entre o governo do Estado, municípios e a própria sociedade civil. Para ter o trânsito seguro, tem de haver envolvimento de todos, não basta tratar como problema do Estado, do pedestre, de X ou Y", afirma. "Não importa se vou fazer uma viagem de 500 quilômetros ou se vou até a padaria para comprar pão: tem de ter comportamento adequado, ficar atento, colocar o cinto, obedecer as regras de trânsito. Isso pode salvar vidas."

Estado também deve analisar velocidade das vias com mais acidentes

A professora de Planejamento Territorial da Universidade Federal do ABC (UFABC), Silvana Zioni, aponta que o Estado deveria considerar também a velocidade máxima dos pontos em que há maior número de acidentes. “A velocidade é um fator de risco.”

Outra questão é também detalhar dados sobre atendimento às vítimas desses acidentes, como o tempo até a chegada da equipe de resgate, por exemplo. “O detalhamento do tipo de lesão também é bastante importante para orientar políticas públicas.”

Especialista em Engenharia de Tráfego, Paulo Bacaltchuck pondera que ter um maior número de acidentes não significa necessariamente que um determinado local seja mais perigoso, pois esse cálculo também precisa envolver o volume de modais. Isto é, proporcionalmente, o número de acidentes é menor durante a noite e a madrugada, porém o volume de veículos e pedestres em vias públicas também reduz nesse período.

Além de iluminação, sinalização, semáforos e lombofaixa, Bacaltchuck diz que os dados podem ajudar a identificar outros problemas de infraestrutura, como buracos na via, por exemplo. Outro componente é o fator humano, que leva em consideração a conduta e a situação do motoristas, como fadiga, consumo de drogas e experiência ao volante. 

O engenheiro ressalta que o Estado deveria orientar que os boletins de ocorrência sejam feitos de forma técnica, com informações como detalhes da batida e desenho técnico do acidente. 

'Tem muito descaso e falta pensar no outro', diz homem que ficou paraplégico após acidente

Em janeiro deste ano, o auxiliar técnico audiovisual Jefferson Ferreira Gomes, de 31 anos, foi vítima de um acidente de trânsito que o deixou paraplégico. "Estava de moto, fui fazer uma ultrapassagem e uma senhora fez uma conversão proibida. Batemos praticamente de frente e eu caí no canteiro central. Fraturei a coluna e rompeu a medula. Também quebrei duas costelas e a clavícula."

Com 11 anos de habilitação, ele nunca tinha sofrido um acidente grave de trânsito. No primeiro mês após o acidente, fez fisioterapia em casa. Há um mês, começou um trabalho multidisciplinar de reabilitação, que é realizado ao longo da semana, para ganhar autonomia para realizar suas atividades.

"Eu trabalhava com projeção. Como vou subir para colocar um projetor? Tudo é difícil. Inclinação na rua, altura das calçadas, ônibus, fazer a transferência da cadeira para o carro." Gomes, que é pai de uma menina de 3 anos e meio e de um menino de 3 semanas, diz que as pessoas precisam ser mais conscientes no trânsito. "Tem muito descaso e falta pensar no outro. A pessoa que bateu em mim pegou o telefone da minha esposa, mas nunca ligou para perguntar se eu sobrevivi."

Médico fisiatra da Rede de Reabilitação Lucy Montoro, Fernando Quadros diz que acidentes com motos costumam ser mais graves.

"Quanto mais exposta a pessoa fica, mais sujeita está a politraumatismos. Temos um levantamento do ano passado que mostrou que, de todos os acidentes de moto, quase 60% evoluem para algum tipo de amputação, 16% para lesão medular, que pode causar paraplegia ou tetraplegia, e 7% para lesão encefálica. A maior parte da população acidentada é do sexo masculino e da faixa de 20 aos 40 anos."

Segundo Quadros, os impactos para quem fica com sequelas de acidentes são múltiplos. "Quando a pessoa não é independente, acaba desviando algum familiar para prestar os cuidados mínimos. As pessoas dificilmente conseguem voltar para o posto de trabalho de origem, muitos são realocados. Mas o paciente precisa redescobrir o próprio corpo e os seus direitos." /COLABOROU FELIPE RESK

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