Estádio do Corinthians paralisa mercado imobiliário em Itaquera

Esperando valorização, proprietários suspenderam negociações em andamento; mas estádio pode depreciar bairro, alertam especialistas

Daniel Gonzales, estadão.com.br

14 de setembro de 2010 | 16h02

 

SÃO PAULO - Quinze dias depois do anúncio oficial, a construção do futuro estádio do Corinthians em Itaquera, zona leste paulistana, possível palco de abertura da Copa-2014, já provoca um forte efeito colateral no bairro: a paralisação quase total das transações imobiliárias.

 

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Esperando uma supervalorização do bairro a ser trazida pela arena corintiana, muitos proprietários não querem mais vender seus imóveis, ou estão pedindo valores bem mais altos - um apartamento no único condomínio cujo terreno faz divisa com os limites do estádio, que era negociado por R$ 80 mil no início do ano, hoje custa R$ 130 mil, ou 62% a mais. Por causa dos altos preços e da escassez de oferta, o interesse dos compradores também diminuiu.

 

Mas essa expectativa pode não passar de ilusão, segundo especialistas em mercado imobiliário, urbanismo e lideranças do bairro de Itaquera, que se reuniram na manhã de hoje para debater o impacto que será causado pelo estádio.

 

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SP), José Augusto Viana Neto, a simples construção da arena não traz garantias de valorização ao bairro. "O projeto do estádio é produtivo para a região, mas por si só não vai trazer nenhuma valorização real".

 

A ser mantida a situação atual, e se não forem feitas grandes obras de melhoria de infraestrutura, há deficiências que, em vez de ajudar, vão atrapalhar a valorização dos imóveis, alerta ele.

 

Vistoria. A conclusão de Viana Neto baseia-se em uma vistoria organizada pela entidade em Itaquera, no último dia 10, depois que corretores e imobiliárias da região registraram forte crescimento da especulação imobiliária. "Vimos, por exemplo, que o bairro tem um tremendo problema nas vias públicas. Há muitos gargalos nas avenidas de acesso, que exigiriam obras e grandes desapropriações", diz. Outros pontos: a presença de mais pessoas e o barulho provocados pelo estádio podem depreciar a região.

 

Por causa disso, segundo o arquiteto Eduardo de Castro Melo, responsável pelo projeto de outros dois estádios corintianos que não saíram do papel - um deles o imaginado pelo ex-presidente do clube Vicente Matheus, na década de 1980, no mesmo terreno, com capacidade para 200.000 pessoas - é fundamental que o poder público acompanhe a construção da arena de perto, com investimento pesado em melhorias. "Assim, o estádio é plenamente viável".

 

Zoneamento. Nesse ponto, porém, surge outro problema: muitas das obras e projetos esbarram no zoneamento da área, que não permite atividades comerciais em certas vias e nem construções acima de certa altura ou adensamento excessivo em outras. Assim, possíveis investidores acabam perdendo o interesse na área. "A conta, para eles, não fecha", diz Genisvaldo Ferreira da Silva, conselheiro do Creci. "Existe um clamor pela revisão do zoneamento na região", diz Viana Neto.

 

Eduardo Pinheiro Borges, vice-presidente do Fórum para o Desenvolvimento da Zona Leste, afirma que faltam investimentos em infraestrutura que vão desde as comunicações - "Itaquera, hoje, só dispõe de serviços de banda larga de baixa velocidade, diz" - a saneamento básico e incentivos fiscais para geração de empregos.

 

Tudo isso além da conclusão das obras da Nova Radial Leste e Avenida Jacu-Pêssego, ainda inacabadas, mas já em projeto na Prefeitura. "Quase todas as avenidas da região têm um traçado centro-bairro, mas não temos vias que cruzem e conectem essas avenidas. Precisamos de investimento maciço".

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