Estabanada hospitalidade

Rendeu caldo a conversa da semana passada, sobre dois autores estrangeiros - Elizabeth Bishop e Alfonso Reyes - que, tendo vivido aqui, escreveram sobre o Brasil e os brasileiros. Houve quem achasse que o cronista, preconceituoso, falava pela boca dos ilustres forasteiros. E houve quem farejasse inconveniência na menção a pruridos nas partes pudendas de Reyes - como se nos diários do embaixador mexicano não sobrassem alusões a tal comichão, e com detalhes de anatomia que o cronista preferiu não levar a seus leitores. Perto do que lá está, o que você leu é pinto.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2012 | 02h05

Nós tratamos muito bem os visitantes, puxou-me as orelhas esse leitor. Eu sei. Mas não basta querer agradar. Pensemos na nossa por vezes estabanada hospitalidade. No afã de agradar o Nobel de literatura Rudyard Kipling, deram-lhe um tatu quando esteve no Rio, em 1927. Foi um trabalhão para explicar que tatu, mais afeito a buracos, não encara navios e hotéis de luxo.

Agora imagine se além de Bishop e Reyes tivesse entrado na crônica a Ina von Binzer, jovem professora alemã que viveu entre o Rio e São Paulo de 1881 a 1884, daí tirando um livro delicioso, em forma de cartas à amiga Grete, Os meus romanos - Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. Publicado aqui em 1956, provocou admiração, mas também protestos. Yan de Almeida Prado viu na autora uma inimiga do Brasil, o que levou Paulo Duarte a sair em defesa da alemãzinha, "mulher inteligente, espirituosa, sensível e culta". Se aqui e ali a moça se excedeu em comentários negativos, foi por força da "psicologia de expatriado".

Paulo Duarte não disse, mas a reação de Yan se explicaria pelo fato de pertencer ele a uma família para a qual Ina trabalhou. No livro, está como Costa, mas é Prado. Por se chamarem Caio, Plínio, Lavínia, Cordélia e Clélia, os filhos de Martinico Prado ficaram sendo os tais "romanos" do título. Turminha encapetada, a disparar rojões nas patas dos cavalos que puxavam bondes, para horror da germânica preceptora.

Esqueça o Yan, fique com a Ina - e vá correndo ao livro. Ainda quando exagera nas avaliações e nas caricaturas, ela é divertida e, não raro, enxerga bem o que vê. No mínimo, Ina von Binzer é mais bem-humorada que Albert Camus, outro que registrou impressões, depois de ter passado aqui 26 dias, em 1949.

Se você leu o Diário de viagem, deve se lembrar da irritação e tédio com que o escritor francês, aos 35 anos, ainda não prêmio Nobel mas já autor de O estrangeiro, A peste e O mito de Sísifo, atravessou aquelas semanas, às voltas com uma gripe que o calor dos trópicos e a asfixiante efusão dos anfitriões só fizeram piorar. Enfrentou almoços "cáusticos", "tão apimentados que fariam andar paralíticos". No Corcovado, viu "um imenso e lamentável Cristo luminoso". A baía de Guanabara? "Espetacular" demais para seu gosto. São Paulo, "uma cidade estranha".

Do povo, em geral, Camus gostou. Apreciou nossa "refinada polidez, talvez um pouco cerimoniosa, mas que mesmo assim é melhor que a grosseria europeia". Divertiu-se em companhia de Oswald de Andrade, "personagem notável (a desenvolver)", que o levou às festas religiosas de Iguape - acidentada viagem da qual trouxe material para escrever A pedra que cresce, do livro O Exílio e o Reino.

No capítulo das antipatias, afinal poucas, ninguém a seus olhos superou o poeta Augusto Frederico Schmidt. Camus dedica cinco páginas à reconstituição de um jantar no qual "Federico" se fez acompanhar de um cômico "señorito", infelizmente não identificado. "Enorme, indolente, com os olhos franzidos, a boca caída", o poeta vez por outra se interrompe "para cuspir no prato, lá do alto, espinhas e fiapos de peixe".

Sem ter vivido para ler o Diário de viagem, Schmidt também deixou impressões. "Lembro-me de nosso singular encontro, das horas que passamos juntos e que foram penosas. E de como nos possuiu uma invencível irritação - um contra o outro -, e do quanto as palavras que proferimos nos separaram."

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