'Esse ainda vai ser o fórum do Decio (não do Lalau)'

Após se tornar parte do acervo do Pompidou, projeto do polêmico prédio na Barra Funda está em exposição em Barcelona

Entrevista com

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h02

Pivô de um dos maiores escândalos de desvio de verba pública, o Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, na Barra Funda, zona oeste, tem, nos últimos anos, aparecido mais por causa da boa arquitetura do que pelos episódios criminosos envolvendo o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau. Além de integrar o acervo permanente do Museu Georges Pompidou, de Paris, a obra estará até 9 de setembro na mostra Torres e Arranha-Céus: De Babel a Dubai, em Barcelona, de onde seguirá para Madri. "Faço questão de inscrevê-lo em todos os concursos e bienais", afirma o arquiteto paulistano Decio Tozzi, que assina o "fórum" - como costuma chamar o prédio - com a arquiteta Karla Albuquerque e não esconde sua irritação ao vê-lo sendo chamado de "fórum do Lalau".

Aborrece o fato de sempre se referirem à sua obra como o "fórum do Lalau"?

Sim. Sempre me aborreceu. Porque aquilo lá é um p... de um projeto em São Paulo, que hoje desperta a atenção de colegas, estudantes, professores e faz com que eu seja convidado a dar palestras em faculdades, faz com que eu receba ligações de arquitetos do exterior... É um edifício reconhecido mundialmente, foi pinçado pelo Pompidou. Mas aqui ficam falando no Lalau (ele baixa o tom de voz para mencionar pela única vez o ex-juiz em mais de 2h de entrevista). Ele foi condenado, não tem nada que ver com isso. Vamos fazer a boa arquitetura. É a arquitetura que salva.

Mas o senhor concorda que, mesmo não tendo a ver com a sua arquitetura, o escândalo não pode ser esquecido?

Eu quero que o fórum seja reconhecido pelo valor cultural. E não por causa de abutres que chegaram lá e bicaram o bolo. Daqui a alguns anos, esse ainda vai ser o "fórum do Decio", porque tem sido objeto de mesura da cultura arquitetônica mundial com relação à arquitetura paulista. Claro que tem de atacar (o desvio de verba), mas a sociedade já não teve a sua justificativa?

Em Barcelona estará exposta a maquete que pertence ao Pompidou?

Sim, mas, veja bem, não é maquete. É um modelo conceitual. Contém uma ideia da arquitetura, uma transposição de ideias do modelo para o real. Ele é conceitual. Enquanto a maquete é uma miniatura, o modelo representa a ideia. Mas o modelo é um objeto autônomo, tem valor de escultura. Não é naturalista, não tem aquela coisa de janelinhas.

E como é esculpido?

Graças à tecnologia. Usamos um plotter tridimensional que esculpe segundo um arquivo lido pelo software. Para um modelo de 50 cm do fórum, foram 15 dias.

Como foi a escolha do Fórum para o acervo do Pompidou?

Foi em 2010. Estava no escritório com minha equipe. Criamos divertidamente. Por isso brinco que estamos empobrecendo alegremente (risos). De repente, minha secretária anuncia que uma senhora de Paris queria falar comigo no telefone. Ela disse que eles estavam fazendo uma pesquisa para aumentar o acervo permanente e focaram meu trabalho. Escolheram três obras: o Fórum, a casa e a capela da Fazenda Veneza, em Valinhos, e a Escola (Técnica de Comércio) de Santos.

Por que o senhor considera o fórum tão importante arquitetonicamente?

Em 1992, quando o projetamos, fizemos uma pesquisa histórica sobre os sucessivos modelos apresentados para o tema. Essa prospecção, em fóruns e palácios de justiça do século 19, nos revelava projetos autoritários, amedrontadores, sem leitura. A Justiça era autoritária porque a sociedade era autoritária. Buscávamos um modelo que refletisse a sociedade pós-moderna, pós-industrial, contemporânea, metropolitana. Essa é a chave: o vertical. Em vez de hall solene, construímos o fórum como uma praça pública inserida na cidade. É a cidade penetrando no edifício. O Fórum Trabalhista é a metáfora da metrópole.

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