Esquizofrênico pode ter discurso racional

Até no delírio é possível encontrar lógica e racionalidade. Por isso, a aparente coerência no depoimento de Fernando Behmer Cesar de Gouveia Buffolo não surpreendeu psiquiatras ouvidos pelo Estado. As explicações dele para os tiros, segundo os médicos, são compatíveis com quadro de esquizofrenia.

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h02

"A esquizofrenia não quebra todos os laços do indivíduo com a realidade. Um dos sintomas é o delírio persecutório, o que não implica necessariamente falta de lógica no raciocínio. O doente muitas vezes nega seu quadro de saúde e é pouco crítico em relação à sua condição", diz o psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Hospital das Clínicas.

O psiquiatra Guido Palomba afirma que, apesar da coerência na narração de Buffolo, o depoimento mostra o quadro de alguém doente mentalmente. "Ele narra os acontecimentos como se o fato de ter mobilizado toda a polícia do Estado não fosse um grande problema. Ele se coloca no papel de vítima e parece que os errados foram aqueles que chegaram em sua casa."

Segundo Palomba, o depoimento é uma peça no quebra-cabeça, insuficiente para apontar diagnóstico. Para ele, seria importante saber sobre o relacionamento que ele tem com a psicóloga Silvia Guerra. "Um dos sintomas da esquizofrenia é o embotamento emocional."

O psiquiatra José Gallucci Neto, da Faculdade de Medicina da USP, diz também que é comum o doente com esquizofrenia não perceber seus sintomas e até negar a sua condição de saúde, como fez Buffolo no depoimento. "Muitas vezes isso é para tentar evitar a internação", afirma Gallucci Neto. / BRUNO PAES MANSO

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