Esquema de Nem usava até empresas

PF identificou 5 'laranjas' que participavam de lavagem de dinheiro do tráfico; um dos envolvidos mora em cobertura de luxo na Barra

PEDRO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2011 | 03h04

A Polícia Federal (PF) identificou cinco "laranjas" de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro do traficante Antonio Bonfim Lopes, o Nem, que envolve advogados, contadores e empresas que atuam fora da Rocinha. Ele comandava o tráfico de drogas na comunidade desde 2005.

A investigação começou logo após sua prisão, na madrugada do dia 10. O perfil empresarial do traficante chamou a atenção dos policiais federais. Danúbia Rangel, mulher de Nem, também é investigada e deve ser chamada para prestar esclarecimentos nos próximos dias. O paradeiro dela, desde que deixou a Rocinha logo após a prisão, é desconhecido.

O esquema da lavagem de dinheiro envolve propriedades localizadas fora do Estado do Rio. Um dos envolvidos mora em uma cobertura de luxo na Barra da Tijuca, bairro nobre da zona oeste da cidade.

Investigadores advertem que o esquema é complexo. "A investigação não tem prazo definido e será profunda. Vamos bater no braço financeiro da organização", prometeu o delegado Victor Hugo Poubel, titular da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros da PF.

Advogados. A investigação sobre lavagem de dinheiro começou com a identificação dos advogados que acompanhavam o traficante no momento da prisão. A polícia recolheu informações sobre o alto poder aquisitivo dos três homens que esconderam o traficante no porta-malas de um Corolla. Os advogados chegaram a oferecer R$ 1 milhão aos policiais do Batalhão de Choque da PM do Rio que abordaram o carro, antes da chegada dos policiais federais. Ontem, o Tribunal de Ética da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio (OAB/RJ) anunciou a suspensão temporária dos três advogados por 90 dias, cujo processo disciplinar pode acabar em expulsão.

Os advogados Demóstenes Armando Dantas Cruz e Luiz Carlos Cavalcanti Azenha permanecem presos. Filho de Demóstenes, André Luiz Soares Cruz responde em liberdade por favorecimento pessoal. André foi o advogado que se apresentou como cônsul honorário da República Democrática do Congo. Ele era o diretor jurídico do Conselho Nacional dos Peritos Judiciais da República Federativa do Brasil (Conpej) e Demóstenes, assessor do mesmo departamento. Os dois foram suspensos pelo Conpej após a prisão.

Em seu depoimento à PF, Nem adotou a tática de parecer menos importante e chegou a declarar que faturava "apenas" R$ 1 milhão por mês. Policiais federais não acreditam que ele aceitará o benefício da delação premiada. O traficante temeria por sua segurança e ainda acredita na chance de ser condenado apenas por tráfico.

Na internet. O perfil espalhafatoso das mulheres dos traficantes da Rocinha tem ajudado na investigação. Em redes sociais, elas exibem bens, propriedades e se envolvem em discussões. Um dos exemplos é Fabiana Escobar de Sá Silva, ex-mulher do traficante Saulo de Sá Silva, preso em 2008. As atividades dela em sites e redes sociais teriam auxiliado os policiais na captura do marido. Hoje, Fabiana é comerciante na Rocinha e Saulo cumpre pena de 18 anos em Bangu 1. /COLABORARAM ALFREDO JUNQUEIRA e FÁBIO GRELLET

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