Esquema ''caça-níquel'' unia PMs e civis

Corregedores da Operação Apolo detiveram quatro policiais e apreenderam R$ 18 mil e 600 máquinas na zona oeste da capital paulista

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo descobriu o que passou a chamar de "ciclo completo da propina". Enquanto um PM controlava caça-níqueis, policiais civis recebiam suborno dos contraventores para avisar sobre operações contra o jogo e liberar máquinas apreendidas. Até a perícia ganhava sua parte, fraudando laudos. Cinco acusados, entre eles uma delegada, foram presos ontem e 27 mandados de busca, cumpridos.

A ação dos corregedores - batizada como Operação Apolo - apreendeu R$ 18 mil, duas armas e 600 máquinas de caça-níquel durante os dois meses de investigação. Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostrariam a delegada Joana Darc de Oliveira, assistente do 34.º Distrito Policial (Morumbi), supostamente avisando contraventores sobre a presença dos corregedores, fazendo uma operação contra a máfia na região.

Os policiais civis acusados receberiam de R$ 300 a R$ 350 para liberar cada máquina de caça-níquel apreendida. O investigador Belmiro Rondelli Junior faria a recolha do dinheiro. O acerto ocorreria na delegacia. Oito suspeitos de dominar a exploração de caça-níqueis na região foram monitorados pela Corregedoria, entre eles o sargento da PM Ricardo de Jesus Bachega.

De acordo com as investigações, quando a Corregedoria apreendia as máquinas, entrava em ação mais um acusado no caso: a perita criminal Anita de Paulo Pereira. Ela seria encarregada de atestar que as máquinas não estavam funcionando e, portanto, não haveria crime no caso.

O suposto esquema começou a desmoronar quando os corregedores fecharam, em julho, um bingo clandestino que funcionava na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em Pinheiros, zona oeste. O lugar seria controlado por Luis Antônio Peguim, o Bozo, apontado pelos corregedores, ao lado de Waldir Graguim, o Didi, como um dos principais contraventores da região oeste.

Com base nas provas recolhidas no lugar, a Corregedoria encontrou os primeiros indícios de corrupção. "Essa investigação começou há um ano", afirmou a delegada Maria Inês Trefiglio Valente, diretora da Corregedoria. Eram 4h30 quando 42 agentes comandados pelo delegado Luiz Antônio Rezende Rebello se reuniram na sede do órgão para começar a operação.

Na casa do sargento, os corregedores encontraram R$ 18 mil. Ele trabalhava na 2.ª Companhia do 16.º Batalhão e foi preso, com a ajuda da Corregedoria da PM, enquanto trabalhava. No decreto de prisão temporária de cinco dias, a Justiça autorizou o uso de algemas nos acusados, caso fosse necessário. A delegada foi presa em casa, no Butantã, zona oeste, às 6 horas. Além deles, também foram presos a perita, em seu apartamento em Santana, na zona norte, e o investigador.

Os corregedores vasculharam ainda o 34.º DP e a 2.ª Companhia do 16.º Batalhão, em busca de provas contra os acusados. Foram apreendidos computadores, agendas e documentos.

COMO FUNCIONAVA

O "CICLO COMPLETO DA PROPINA" PARA JOGOS ILEGAIS NA CAPITAL

1

Contraventores e PM

Comerciantes e policiais exploravam caça-níqueis, bingos e até um cassino.

2

Policiais civis

Eles receberiam propinas para deixar funcionar e para devolver máquinas apreendidas.

3

Perícia criminal

Para que a máquina ficasse apreendida, era preciso de laudo. Mas esse era fraudado.

4

Recolhe

O dinheiro do acerto seria recolhido por um policial, que centralizava os recebimentos.

5

Prevenção

Os donos da jogatina eram avisados para fechar suas portas em dias de operação policial.

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