Especulação e comércio esvaziam imóveis nos Jardins e Vila Mariana

Responda no ato: qual é a região de São Paulo que concentra mais imóveis vazios? Ainda que a resposta mais comum seja o centro, os dados do Censo de 2010 mostram o contrário. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), bairros nobres como Jardim Paulista, Vila Mariana, Itaim-Bibi e Moema têm mais domicílios desocupados que qualquer outro da região central. No total, a capital tem 353 mil imóveis vazios.

Rodrigo Burgarelli e Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 00h00

O centro paulistano é a área da cidade que tem menos imóveis vazios - são apenas 33.272, cerca de três vezes menos que os 104.946 da líder do ranking, a região sul. Entre os distritos centrais, o que tem mais casas e apartamentos desocupados é Bela Vista, com 5.776 imóveis - o suficiente para colocá-lo em um modesto 12.° lugar. Já a liderança entre os bairros fica com o Sacomã, na zona sul, onde está a favela de Heliópolis. Lá, os recenseadores encontraram 8.643 casas vagas.

[ ]As razões para esses fenômenos são variadas. Em primeiro lugar, houve um movimento de retorno ao centro nos últimos dez anos, alavancado pela expectativa de revitalização de áreas consideradas degradadas. Desde o último censo, a região recebeu 63 mil habitantes. Esses moradores acabaram ocupando apartamentos antes vazios, o que fez o número de imóveis vagos cair em cerca de 40% - em 2000, a região tinha 54 mil imóveis não ocupados.

Já explicar o que acontece nos distritos nobres é um pouco mais difícil. Uma hipótese levantada pelo IBGE é o processo de transição pelo qual passam Jardim Paulista e Vila Mariana. "Esses são locais que antes eram majoritariamente residenciais, mas cada vez mais estão ganhando características comerciais. Em circunstâncias assim, é normal encontrar imóveis que ficaram vagos e estão à procura do primeiro locador comercial. No recenseamento, vimos muito isso na Vila Mariana, até por causa das universidades que estão abrindo ali", diz Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE.

Especulação. O diretor da [ ]Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp)[/ ], Luiz Paulo Pompéia, diz que esse fator pode influenciar, mas não é o único determinante. "Isso demonstra que também há uma falta de liquidez nos imóveis lançados nestes locais. Mas a explicação mais provável é que os apartamentos lançados estejam provocando bastante interesse por parte de investidores." Assim, empreendimentos em bairros como Itaim-Bibi e Moema estariam sendo adquiridos para, num momento posterior, serem vendidos a futuros moradores por preços maiores. Enquanto isso, ficam fechados - colaborando para um processo de especulação imobiliária.

Outro motivo apontado por Pompéia para traduzir os dados é o fato de o centro ter um perfil predominantemente comercial. [ ]Isso significa que, como o IBGE[/ ] só conta os domicílios residenciais, vários prédios de escritórios e antigos depósitos que hoje estão vagos ficaram de fora dos números apresentados no censo.

A liderança do Sacomã, por sua vez, é explicada por duas razões. A primeira é o alto número de domicílios - como é o 5.º distrito da capital em número absoluto de residências, a quantidade de imóveis vagos também tende a ser maior do que nos outros bairros. Outro motivo é a presença de Heliópolis - há vários imóveis vazios no entorno da comunidade.

PARA LEMBRAR

Imóvel vago vai ter IPTU maior

Até o início de 2012, mais dados sobre imóveis vagos vão ser obtidos pela Prefeitura. Trata-se do resultado preliminar da lei do IPTU progressivo, que prevê aumento no imposto para imóveis vazios em Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis). Se eles não forem ocupados depois de cinco anos, poderão ser desapropriados para habitação social. No fim de 2009, 122 mil proprietários foram notificados para provar que seus imóveis estão cumprindo função social. Depois de 12 meses, a Prefeitura promete aplicar o aumento gradual do IPTU.

 

 

 

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