Especialistas criticam repressão policial a usuários

Dois dos maiores especialistas do Brasil na formulação de políticas públicas de combate às drogas avaliam não ser necessária intervenção policial repressiva contra usuários que passam as madrugadas dos fins de semana na Rua Peixoto Gomide, entre as Ruas Augusta e Frei Caneca, na região da Avenida Paulista, área nobre de São Paulo.

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2014 | 02h04

Professor de Psiquiatria na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o médico Luis Fernando Tófoli diz que não se pode tratar os jovens como doentes ou bandidos. "Primeiro, porque a maioria não é dependente. Eles são usuários. Se você tratar a pessoa como bandido, é um passo errado. O segundo passo, e mais importante, é trazer para esses jovens informações sobre os riscos de se usar essas drogas em grande quantidade."

Tófoli avalia que hoje o consumo de drogas faz parte da "paisagem" das baladas dos jovens de classe média. Ele ressalta que fumar maconha ou usar cocaína não é algo marginalizado entre os jovens como era há 15 anos. "A abordagem só pela proibição não funciona. O traficante pode mudar o radical (a fórmula) da droga em laboratório e torná-la não ilícita."

As políticas de redução de danos - o alerta para que não misturem dois tipos de drogas, por exemplo - também devem ser adotadas entre jovens com o perfil dos que frequentam as baladas da Rua Augusta. "A premissa principal é não tratá-los como doentes", afirma Tófoli.

Opinião semelhante tem a socióloga Julita Tannuri Lemgruber. Coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes e ex-ouvidora da Polícia do Estado do Rio de Janeiro, ela diz ser favorável à regulação das drogas para o consumo.

"Minha posição é favorável à legalização das drogas, e isso não quer dizer 'liberou geral'. Quer dizer regular. Hoje, o consumo de drogas é feito abertamente nas ruas das grandes cidades. Todo mundo sabe que é mais fácil comprar cocaína do que um antibiótico. Essa hipocrisia precisa acabar. Ato criminoso é vender drogas com outras substâncias", afirma Julita.

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