WERTHER SANTANA / ESTADÃO
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Especialista critica recado de governador de SP a bandidos e cobra melhores salários para policiais

Coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente diz que Operação Sufoco tem o objetivo de marcar uma posição política

Isabela Moya,, especial para o Estadão

04 de maio de 2022 | 18h36

Para José Vicente, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, a Operação Sufoco anunciada pelo governo paulista nesta quarta-feira, 4, tem o objetivo de marcar uma posição política. Vicente diz que a “polícia continua fazendo a mesma coisa”. A diferença, para ele, é que agora há um apelo para os policiais trabalharem nas horas de folga e intensificar o patrulhamento nas áreas de maior incidência de crimes. O especialista em segurança pública classificou ainda como “ridícula” a declaração do governador Rodrigo Garcia (PSDB) na qual disse que “quem levantar arma contra a polícia vai levar bala” e cobrou melhores salários para policiais.

Diante da alta nos casos de furto e roubo na cidade de São Paulo – especialmente aqueles relacionados a criminosos que se disfarçam de entregadores de aplicativos –, o governo anunciou a Operação Sufoco, que aumenta dos atuais 5 mil para 9.740 o número de policiais militares nas ruas da cidade. O investimento mensal do Estado será de R$ 41,8 milhões.

Qual a avaliação sobre a situação dos crimes contra o patrimônio e o panorama de segurança pública de São Paulo?

Crimes de patrimônio são a principal massa de crime, mais de mil ocorrências por dia no Estado. Isso é relativamente normal para o tamanho e a realidade populacional do Estado. A polícia vem evoluindo na tecnologia e, nos últimos 20 anos, houve queda constante nos crimes contra o patrimônio. Tivemos oscilações, com o aumento nesses três primeiros meses de 2022, mas nada muito significativo. Importante lembrar que latrocínios – isto é, roubo seguido de morte – são muito raros em São Paulo. Para cada 500 mil roubos, ocorrem 100 latrocínios.

As medidas propostas pelo governo podem resolver os problemas em relação a esse tipo de crime?

Essa ação quer marcar uma posição política em cima da segurança pública, assim como aconteceu com a mudança dos comandos das polícias Civil e Militar. O que eu vejo é que a polícia continua fazendo a mesma coisa, a PM vai continuar atuando onde já atua, ou seja, nas manchas criminais, onde têm mais registros de ocorrência, mas agora há um apelo aos policiais para usarem suas horas de folga. Algumas coisas são ridículas, ao meu ver. Primeiramente, o governador dar recado aos bandidos, dizendo para mudarem de ‘profissão’ ou de Estado, e que a PM vai prender todos os criminosos. Isso não é verdade, a polícia não faz isso. Ela tem por obrigação prender os criminosos, mas não vai prender todos, o trabalho é para reduzir as oportunidades do crime. O bandido não muda de vida, mas pode haver uma redução da potência dos crimes. Outro aspecto é dar nome (Operação Sufoco). Na verdade, simplesmente vai intensificar o patrulhamento nas áreas de maior incidência de crimes. Vai reduzir a zero? Claro que não. A polícia vai até certo ponto, não vai atrás de todos os bandidos, afinal de contas temos 350 mil condenados soltos só no Estado de São Paulo. E uma coisa que me preocupa há muito tempo, e considero dramático, é a situação de PMs, que têm um trabalho muito exaustivo, com cargas de 12h, e nas horas de folga vão trabalhar mais para ganhar um reforço ao baixo salário, já que estão desesperados com salários tão baixos. Acho que o governo deveria dobrar o valor recebido por hora de trabalho, o Estado tem dinheiro pra isso.

A Polícia ainda carece de medidas que sejam efetivas a longo prazo?

Esse trabalho a longo prazo já vem sendo feito pela PM, que tem uma tecnologia das mais avançadas do mundo. A luta contra o crime contra o patrimônio é uma luta permanente, é um drama do Judiciário que solta criminosos que deveriam estar cumprindo a pena em regime fechado. A PM vem tendo êxito, mas esse êxito não é tão visível. Muito se fala sobre a segurança pública estar ruim, mas não está, considerando o contexto geral. O medo da população não é indicador de violência. E lutar contra o medo da violência é uma luta quase inglória.

Então a PM já está fazendo o que é necessário para coibir esse tipo de crime?

Sim, já fazia antes. A PM desenvolveu um sistema que só existe em São Paulo e em Nova York em que o policiamento da cidade é remanejado várias vezes ao dia de acordo com os lugares onde há registro de crimes, e não de forma aleatória. Ou seja, a dinâmica já existe, o que foi acrescentado foi a abertura de vagas para mais oficiais nas ruas. O grande desafio para esse e para o próximo governo é afinar melhor o trabalho da Polícia Militar com a Polícia Civil, porque a Polícia Civil precisa investigar os principais criminosos de cada distrito policial, precisa ter maior capacidade de resposta investigativa. Dos 50 distritos policiais, temos no máximo 15 que são problemáticos na questão do crime patrimonial. Não é um problema em toda a cidade, esses fatos são localizados.

Existem outros problemas urgentes em São Paulo, para além do crime patrimonial, que precisam de mais atenção? Como resolvê-los?

Temos outros problemas como estupro, mas a polícia não tem como abordar a origem desse crime, porque metade dos casos de violência sexual acontece em casa, com crianças e jovens, e partindo de criminosos que possuem relações próximas à vítima. Além disso, a minoria das vítimas denuncia esse tipo de situação. A rigor, temos apenas três tipos de crimes com quase 100% de registro: homicídio e roubo e furto de veículos – e, nos últimos 20 anos, houve uma queda de mais de 80% nesses três casos em São Paulo.

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