Especialista alemão recomenda verba privada para a Mooca

Revitalização feita em Stuttgart, inspiração da Prefeitura para o bairro da zona leste, foi bancada apenas por empresas

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2010 | 00h00

Se quiser fazer a revitalização da Mooca, na zona leste, sair do papel - plano da Prefeitura revelado ontem pelo Estado -, São Paulo tem muito a aprender com Stuttgart - para o bem ou para o mal. Essa é a visão da Prefeitura, que trouxe um grupo de técnicos da cidade de 600 mil habitantes na Alemanha para mostrar sua experiência em levar moradores e serviços para antigas áreas industriais degradadas e contaminadas em um centro urbano.

 

De um lado, o projeto alemão deu certo. A companhia ambiental local começou na década de 1980 um projeto inovador de mapeamento de áreas urbanas com solo e lençol freático poluídos. Depois disso, os locais foram descontaminados e abriu-se espaço para a construção de moradias, comércio e serviços. Até hoje, obras estão sendo erguidas por meio de concessões urbanísticas parecidas com as previstas nas operações urbanas paulistanas da Mooca-Vila Carioca, Lapa-Brás e Rio Verde-Jacu.

Segundo o técnico Hermann Kirchholtes, um dos responsáveis pela revitalização de Stuttgart, um dos pontos fortes da experiência foi a parceria com a iniciativa privada. "Temos como ideal não ter investimento do poder municipal. A prefeitura organiza e os investidores privados vêm com o dinheiro", disse. Ele faz parte de um grupo financiado pela União Europeia que analisa e elabora projetos para áreas degradadas de seis cidades do mundo. Em São Paulo, a região escolhida foi a Mooca.

Polêmica. No entanto, um dos projetos mais importantes de revitalização do centro de Stuttgart está sendo criticado pelos moradores. Ele prevê o enterramento de 9,5 km de trilhos da principal linha férrea que cruza a cidade - justamente como planeja a Prefeitura de São Paulo.

A população faz protestos semanais contra o uso de mais de 4,8 bilhões para a execução do projeto. Por causa da insatisfação, o Partido Verde, de oposição, ganhou a maior parte das cadeiras nas últimas eleições municipais - fato inédito.

Para Kirchholtes, a polêmica pode servir de lição para a capital paulista. "Minha opinião é de que faltou comunicação entre as duas partes: quem está propondo o projeto e a população, que está contra", diz. Segundo ele, isso é uma falha grave em qualquer projeto de revitalização. "Não houve diálogo com quem será afetado, e você não pode construir contra a vontade de quem está lá." Outro conselho é levar em consideração as características específicas de cada caso.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Carlos Leite, arquiteto e urbanista

Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie

1.O que é o projeto?

Planejamos recuperar a área de várzea do Rio Tamanduateí, adensar a área ao longo dos corredores de transporte público para otimizar os serviços e construir novas estações ao longo da linha férrea. Propusemos também uma marquise linear que seria o eixo infraestrutural ao longo do rio, com parque, ciclovia, comércio, lazer. As ferrovias brasileiras, infelizmente, são cicatrizes, elementos segregadores nas cidades.

2. Quais são as principais dificuldades para a revitalização dessa área?

É fundamental fazer uma agência de desenvolvimento urbanístico para cada projeto, para garantir a continuidade das ações, independentemente da gestão. No caso da Nova Luz, por exemplo, antes de contratar um grupo de urbanistas e arquitetos, deveriam ter montado uma agência.

3. Como seria a atuação da agência?

Ela regularia a participação do governo e da iniciativa privada e daria a garantia para que as ações sejam executadas até o fim. É pré-condição presente em todos os casos de revitalização urbanística bem sucedidas no mundo.

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