Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Escritora denuncia estupro por motorista do Uber

'O mundo é um lugar horrível para ser mulher', relatou Clara Averbuck, que criou campanha para incentivar divulgação de casos

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2017 | 18h13
Atualizado 28 Agosto 2017 | 22h47

SÃO PAULO - A escritora Clara Averbuck, de 38 anos, denunciou nesta segunda-feira, 28, em sua página no Facebook que foi vítima de estupro e agressão física cometidos por um motorista do Uber. Ela relatou o ataque, dizendo estar machucada, mas ainda ponderando se registraria o caso na polícia, por não querer se submeter “à violência do Estado”. “O mundo é um lugar horrível para ser mulher”, protestou. A empresa disse ter banido o motorista.

Clara publicou as informações nesta segunda nas redes sociais. O caso, disse ao Estado, aconteceu na noite de domingo, quando deixou um bar de uma amiga e voltava para casa. Em seu texto, disse ter “virado estatística de novo”. “Queria chamar de ‘tentativa de estupro’ mas foi estupro mesmo. Tava bêbada? Tava. Foda-se’”, escreve. “O nojento do motorista do Uber aproveitou meu estado, minha saia, minha calcinha pequena e enfiou um dedo imundo em mim, ainda pagando de que estava ajudando ‘a bêbada’.”

“Estou com o olho roxo, e a culpa de ter bebido e me colocado em posição vulnerável não me larga. A culpa não é minha. Eu sei. A dor, a raiva e a impotência também não me largam. Estou falando tudo isso para que todas as que me leem saibam que pode acontecer com qualquer uma, a qualquer momento, e que o desamparo e o desespero são inevitáveis. O mundo é um lugar horrível pra ser mulher”, acrescenta. 

Ela continua: “Estou decidindo se quero me submeter à violência que é ir numa delegacia da mulher ser questionada, já que a violência sexual é o único crime que a vítima é que tem de provar. Não quero impunidade de criminoso sexual, mas também não quero me submeter à violência de Estado.” 

À tarde, disse que é preciso conscientização sobre o tema. “Não é só a empresa. O mundo tem de se conscientizar que as mulheres têm de ser respeitadas. Já que meu caso teve tanta repercussão, eles (o Uber) poderiam fazer um curso para os motoristas entenderem que mulher bêbada não é convite, minissaia não é convite. Não é para dar em cima da cliente e outras coisas que deveriam ser óbvias, mas que não são.” Nas redes, ela lançou uma campanha com a hashtag #MeuMotoristasAbusador, em que incentiva a divulgação de relatos por outras vítimas de violência. 

Apoio. À revista Cláudia, para quem escreveu um relato mais completo da agressão, Clara disse dedicar seus dias a lutar pelos direitos das mulheres e conhecer bem como o sistema despreparado para lidar com o problema. “Por isso ontem, quando o motorista enfiou o dedo dentro da minha vagina depois de me empurrar do carro na rua escura ao lado da minha, eu vim para minha casa e não fui à delegacia”, publicou. “Que meu caso sirva para que outras mulheres não tenham medo de expor o acontecido. Que não se culpem. Que, se não se sentirem seguras para fazer uma denúncia formal, sejam respeitadas. Porque o sistema é um conto de fadas mal contado. E a polícia é despreparada”, disse. 

A promotora Maria Gabriela Manssur, do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica(Gevid), do Ministério Público paulista, concordou com as críticas à estrutura de atendimento. “Muitas mulheres preferem deixar para lá.” Para ela, é possível que a vítima do ataque dentro de um Uber pleiteie indenização por dano moral. “A empresa é responsável pelo motorista que contrata”, diz Maria. Ela acredita que, diante da recorrência de denúncias, as empresas deveriam investir em ações de prevenção e conscientização dos funcionários. 

Em nota, o Uber disse repudiar “qualquer tipo de violência contra mulheres”. “O motorista parceiro foi banido e estamos à disposição das autoridades para colaborar com as investigações. Acreditamos na importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio e violência contra a mulher.”

Sobre as críticas em relação ao atendimento nas delegacias, a Secretaria da Segurança Pública disse que desde o início deste ano adotou um protocolo único de atendimento. "Essa determinação estabelece um padrão de atendimento nos casos de violência contra a mulher, seja física ou sexual, para melhor acolher as vítimas. A SSP também mantém parceria com o Gevid para aperfeiçoar a formação dos policiais para atender mulheres vítimas de violência doméstica." 

A pasta diz ser a pioneira no aprimoramento de políticas de segurança no combate à violência sexual e de gênero. "O Estado de São Paulo conta com 133 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) - o que representa 35,8% de todas as DDMs do país. De janeiro a julho desse ano, o número de medidas protetivas solicitadas pela Polícia Civil, apenas na capital, chegou a 4.843, um aumento de 36% em relação ao mesmo período do ano passado." 

A secretaria informou ainda que mantém, em parceria com as secretarias de Saúde e Desenvolvimento Social, o programa Bem-Me-Quer, que proporciona acolhimento especial para vítimas na cidade de São Paulo e na região metropolitana. "O objetivo é oferecer um atendimento humanizado que ajude a vítima a amenizar as dificuldades encontradas e a recuperar a autoestima. O hospital tem um ambiente exclusivamente dedicado a este atendimento para dar segurança às vítimas. Desde a sua criação até julho de 2017, já atendeu uma média de 38.359 vítimas no Hospital Pérola Byington. De janeiro até julho deste ano, foram 2.780 atendimentos."

Só para mulheres: aplicativo cadastra 8 mil motoristas

Está em funcionamento desde março deste ano em São Paulo o aplicativo Lady Driver, que funciona da mesma forma que outros apps de transporte, mas com um diferencial: só há motoristas mulheres. Em menos de seis meses, a empresa já cadastrou cerca de 8 mil motoristas na capital e em Guarulhos e agora quer expandir o serviço para o Rio. 

A fundadora e hoje CEO da Lady Driver criou o serviço após ter sofrido assédio. “Ele (o motorista) me buscou na porta de casa e chegou a mudar o caminho. Cheguei bem, graças a Deus, mas comecei a pensar quantas mulheres passam por isso diariamente. A gente se sente mais segura e tranquila com outra mulher”, disse Gabriela Correa, de 35 anos, que comanda a empresa, que tem 15 funcionários.

Ela destaca que o serviço acabou servindo para proteger as profissionais. “Era uma demanda das mulheres que dirigiam e para quem ninguém olhava. Valorizamos o trabalho delas”, disse.

Gabriela diz que o aplicativo funciona como forma de chamar atenção para a causa. “As mulheres passam por situações difíceis com frequência, mas não falam, têm vergonha. O nosso trabalho serve para mostrar que temos voz, que o assédio não é uma coisa rara.” 

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