Daniel Teixeira/Estadão
Acadêmicos do Tatuapé retomou ensaios presenciais, mas com restrições Daniel Teixeira/Estadão

Escolas de samba de SP retomam ritmo para desfilar no próximo carnaval

Ingressos para a arquibancada do sambódromo já estão quase esgotados; agremiações defendem preparação e falam em 'superação'

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 05h00

O silêncio e o esvaziamento dos barracões, das quadras e do sambódromo estão chegando ao fim. Aos poucos, as atividades presenciais das escolas de samba de São Paulo retornam e se ampliam, mas ainda com restrições e em parte fechadas para o público em geral.

O objetivo é fazer um “carnaval da superação”, após as vidas levadas pela covid-19 e a crise gerada pela pandemia. As datas para desafogar a emoção estão definidas: de 25 a 28 de fevereiro. 

A venda de ingressos foi aberta na quarta-feira e, em 24 horas, as entradas para o setor F (de valor mais acessível) esgotaram para o primeiro dia de desfiles. Segundo a empresa responsável, a ALK Live Entertainment, “quase todos” os ingressos para as arquibancadas nos dias do Grupo Especial estavam vendidos até sexta-feira, 22.

A realização de fato dos desfiles dependerá da situação sanitária em 2022, mas a Prefeitura, as escolas e as entidades envolvidas no carnaval têm defendido o planejamento com meses de antecedência. “A missão está um pouco mais complicada”, resume Sidnei Carriuolo, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. “A produção do carnaval precisa de ao menos seis meses. Se não conseguirmos nos apresentar em fevereiro, na hora que melhorar depois nós vamos apenas precisar pegar o que produzimos e desfilar. Vai estar pronto."

Carriuolo também destaca que, caso seja necessário, o carnaval do sambódromo poderá se adaptar a protocolos sanitários. “A gente espera que possa ter arquibancada lotada, que possa fazer um desfile bem aglomerado, para poder dar uma plástica visual, mas, caso as autoridades entendam que não possa ser neste perfil, a gente vai se adaptar.”

A pandemia será lembrada no sambódromo com um desfile de abertura exclusivo de integrantes das Velhas Guardas. A ideia é celebrar a vacinação com aqueles que sobreviveram à pandemia mesmo sendo de grupo de risco. Segundo ele, o momento será emocionante. “Todas as escolas tiveram perdas...Vai bater a saudade, não tem jeito.”

'Já se sente um novo frescor'

Aos poucos, as escolas têm acelerado as atividades de confecção de fantasias, alegorias e carros, com a chegada também dos profissionais de Parintins que vêm para a cidade todos os anos, e retomado os ensaios presenciais e fechados de comissões de frente, baterias e casais de mestre-sala e porta-bandeira. Também têm pipocado eventos de apresentação de fantasias, de samba-enredo e algumas celebrações.

Na Acadêmicos do Tatuapé, por exemplo, foram retomados os ensaios da bateria neste mês, mas exclusivamente semanais e fechados. Há uma expectativa de que possam ser abertos em novembro, quando São Paulo liberará a realização de festas, permitindo a venda de ingresso, cuja ausência tem sido sentida.

Mestre de bateria e presidente da escola, Higor Silva conta que as atividades de produção de fantasias, alegorias e carros alegóricos estão no máximo. Para ele, este será o “carnaval da virada”, não só para as escolas de samba, mas para todos, por envolver uma data marcante no calendário brasileiro.

Já Cristiano Bara, carnavalesco da Unidos de Vila Maria, diz que “já se sente um novo frescor”. “Antes estava parado. Tem aquele alívio. Funcionário para lá e para cá, um caminho para a normalidade”, descreve.

Ele comenta que a alta do dólar e a pandemia afetaram a obtenção das matérias-primas, em grande parte importadas da Ásia, chegando a mais do que dobrar o custo de alguns itens. “Estamos procurando alternativas, fazendo pesquisa de preço. A gente tira da cabeça aquilo que não tem do bolso”, diz. Mesmo assim, calcula estar com 70% do desfile pronto.

Na Colorado do Brás, foram contratados mais profissionais para a confecção de peças, restrita a ateliês e residências dos trabalhadores. O trabalho presencial no barracão está restrito aos profissionais de Parintins, focados na produção dos carros - “todos testados e vacinados”, garante o carnavalesco André Machado.

A escola celebrou o aniversário de 46 anos na sexta-feira, em um evento híbrido, com espectadores presenciais e pela internet, no Teatro Artur de Azevedo, na Mooca. A bateria, passistas, baianas, integrantes da comissão de frente e outros componentes se apresentaram no evento. "Para quem se sentiu seguro para sair de casa e ir ao teatro, a bilheteria abriu às 19h. Quem preferiu ficar em casa pode acompanhar a comemoração pelas redes sociais da escola e do próprio teatro", explica Kelson Wangles, diretor e coreógrafo da comissão de frente da agremiação.

Decisão semelhante foi tomada pela Rosas de Ouro, que celebrará o aniversário de 50 anos com uma festa no próximo sábado, com capacidade de público reduzida. A venda dos ingressos foi aberta exclusivamente para quem tomou a vacina da covid-19.  

'Tivemos perdas irreparáveis'

Carnavalesco da Colorado do Brás, André Machado relata o impacto "muito grande" da pandemia para o carnaval, com perdas de figuras históricas e componentes queridos e também um impacto financeiro enorme para quem trabalhava no setor. "Tivemos perdas irreparáveis, em destaque duas figuras importantes da nossa escola: o nosso diretor de bateria Carlinhos Sebastian e a nossa coordenadora da ala das baianas Nalvinha", lamenta.

Coreógrafo da comissão de frente da Acadêmicos do Tatuapé, Leonardo Helmer, conta que um dos bailarinos do grupo trabalha em hospital e costuma contar o dia a dia nas “trincheiras” durante as reuniões. Os encontros (antes por vídeo) por vezes eram em grande parte de troca de vivências.

Ao longo da pandemia, quando os ensaios eram à distância, Helmer também viu componentes pegarem a covid-19, um até mesmo sendo internado. Ele conta que a segunda onda foi o que mais desanimou na preparação. “Cada pessoa sentiu a sua luta individual, na saúde, financeira. Todo mundo sentiu bastante.”

Com a retomada aos poucos dos ensaios presenciais, com uma frequência ainda menor do que a normal, o coreógrafo também aguarda o retorno de alguns componentes que foram para outras cidades na pandemia. “O horário de trabalho de alguns também mudou, estamos reajustando.”

Já Sérgio Longobardi, presidente da Velha Guarda da Tom Maior, conta que o grupo vai homenagear a perda de dois dos antes 30 componentes durante a pandemia, um deles vítima de covid-19. “Foram nomes importantes para a escola.”

O primeiro encontro da Velha Guarda ocorreu no dia 16, em uma feijoada ao ar livre, em meio a samba, conversas e celebrações. “A expectativa para o carnaval está sendo muito grande”, conta. “(Desde 1973) Só não desfilei no ano que servi no Exército e neste que passou.”

Especialistas em saúde estão entre o temor e a cautela

Entre os especialistas ouvidos pelo Estadão, as opiniões sobre a realização do carnaval de rua foram distintas. Médico sanitarista e professor na USP, Gonzalo Vecina Neto se diz “totalmente temoroso”. Para ele, a situação não terá mudado tanto em quatro meses e a vacinação chegará a cerca de 60% ou 70% até fevereiro. “O grande problema é que carnaval de rua e festa de réveillon não tem como controlar”, afirma.

Como exemplo, cita outros países que flexibilizaram medidas com o avanço da vacinação, mas que não viveram uma experiência do porte de um carnaval de rua brasileiro, com milhões de pessoas aglomeradas. “Não dá para ter um evento (deste porte) sem máscara e sem controle”.

O médico considera, por outro lado, que a realização dos desfiles de escolas de samba seja viável, desde que mediante a adoção de protocolos sanitários, como a vacinação completa dos componentes, a apresentação de comprovante de imunização pelos espectadores e outros.

Infectologista e professora da Unicamp, Raquel Stucchi considera possível a realização do carnaval de rua em 2022 ao se considerar a redução de casos graves e, principalmente, o avanço da vacinação. Ela exemplifica que, diferentemente do ano passado, em que os números voltaram a subir após uma queda em novembro, desta vez a vacinação possivelmente conterá os números de internações e óbitos mesmo se a transmissão aumentar com as flexibilizações.

“(O momento) Nos permite sim fazer essa programação, com muita chance de poder se concretizar, com a consideração que pode ser suspensa (em caso de agravamento da pandemia)”, comenta. Para ela, o principal fator que poderia impactar nesta situação é a disseminação de uma variante de preocupação que drible os efeitos da vacina. 

A docente aponta que o ideal é alcançar cerca de 80% do esquema vacinal completo até o carnaval, com a aplicação da dose de reforço na população idosa, imunossuprimidos e outros grupos mais suscetíveis a desenvolver casos graves.  Mas ressalta: “Precisa diminuir o número de internações e o de óbitos, porque 500 mortes por dia ainda é muito.”

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Carnaval de rua de SP: blocos ensaiam retomada gradual com hesitação

Agremiações reivindicam criação de parâmetros sanitários para definir realização dos desfiles; parte delas não retornou às atividades presenciais, enquanto outras voltaram com ensaios e oficinas

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 08h58

O público estimado do carnaval de rua de São Paulo aumentou 15 vezes desde 2014, quando passou a ser realizado de forma oficial na cidade. O que era um crescimento celebrado se tornou, contudo, uma preocupação em meio à pandemia da covid-19.

Embora o prefeito Ricardo Nunes (MDB) tenha até declarado publicamente que espera repetir os 15 milhões de foliões da última edição, as manifestações da gestão municipal têm destacado que a realização depende da situação sanitária. Nos materiais de divulgação da celebração, há até mesmo um asterisco e a referência “autorização definitiva condicionada à Covisa (Coordenação de Vigilância em Saúde)”.

Neste cenário, o início do planejamento tem gerado hesitação entre os blocos de rua, dos quais parte significativa dos que costumam ter atividades presenciais nesta época do ano ainda não voltou. O principal motivo para o receio em desfilar no ano que vem é a falta de parâmetros sanitários definitivos para a definição da realização do evento, que poderiam facilitar no monitoramento e dar maior segurança à organização.

Uma cobrança semelhante ocorreu no Rio. Por lá, a pedido de uma comissão de vereadores, a Fiocruz e a UFRJ elaboraram cinco parâmetros para a realização do carnaval, incluindo a cobertura vacinal completa de 80% da população (no País, no Estado e na cidade) e a média móvel semanal de até 1,63 caso a 100 mil pessoas das Síndromes Gripal e Respiratória Aguda Grave (que incluem a covid-19). 

O relatório também indica protocolos sanitários, tais como a exigência de passaporte da vacina no acesso a hotéis e espaços fechados, além da criação de um “Painel do Carnaval” para a divulgação de indicadores. Em nota ao Estadão, a Prefeitura do Rio disse avaliar as sugestões dos pesquisadores.

Sem a definição de indicadores, alguns blocos paulistanos veem a situação como ainda nebulosa. Com as inscrições para os desfiles abertas no dia 15, parte ainda discute o que fazer enquanto outros vão preencher os formulários, porém com o plano B de cancelar a participação semanas antes (como algumas agremiações menores já fizeram em outros anos quando não conseguem obter recursos e afins). 

No Rio, por exemplo, o número de pedidos de desfiles para participar da programação oficial de 2022 foi inferior ao do carnaval anterior à pandemia, embora ainda seja alto. Em 2020, a Prefeitura recebeu 731 solicitações (das quais 441 foram autorizadas), enquanto foram 620 feitas para o ano que vem.

Há a possibilidade que este recuo se repita em São Paulo. “Estamos mais pela precaução do que pelo liberou geral. Daqui a dois meses, talvez o quadro será outro e já se saberá o tamanho dos inscritos. A pandemia que está no comando, ela não pode ser esquecida, nem menosprezada”, comenta José Cury Filho, representante do Fórum de Blocos do Carnaval de Rua de São Paulo, que reúne cerca de 190 agremiações.  

“Se vai ter ou não, estamos esperando ainda. Diferentemente de escola de samba, o carnaval de rua é outra coisa, não é controlável (do ponto de vista sanitário, com restrição de acesso e afins)”, compara. 

No Me Lembra Que eu Vou, por exemplo, os batuqueiros voltaram a se reunir presencialmente, mas ainda com menor frequência. “É mais um encontro que um ensaio mesmo”, conta Cury Neto, uma das lideranças do bloco. Para novembro, estão previstos quatro ensaios, com distanciamento, uso de máscara obrigatório e outras exigências.

Uma reabertura presencial também ocorreu no Os Capoeira, que inclui outras atividades em uma casa de cultura própria, como oficinas de percussão. “Não sabemos ainda qual vai ser a situação para o carnaval, mas o que a gente quer é que seja da maneira mais legal possível”, conta Mestre Dalua, um dos fundadores.

Ele tem identificado que os alunos das oficinas valorizaram mais a experiência por causa do afastamento temporário. “Perceberam o quanto a música era importante na vida deles”, comenta. “É uma esperança que as pessoas voltem com um olhar muito mais cuidadoso para o setor cultural. A gente como profissional da área sentiu a pandemia de uma maneira muito dura.”

No Quizomba!, as inscrições para as oficinas de percussão estavam abertas até dias atrás. Como o tempo de preparação é mais curto neste ano (geralmente começam em abril), foram aceitas apenas pessoas com experiência nos instrumentos ou iniciantes interessados em tocar chocalho (considerado mais simples e viável para aprender até o carnaval). 

Há mais um porém para participar das aulas: são restritas àqueles que estão com o esquema vacinal em dia. Em São Paulo, a retomada foi em setembro, enquanto as turmas do Rio regressaram no dia 20. Por enquanto, cerca de 160 estão inscritos nas duas cidades, de acordo com André Schmidt, professor e diretor do Quizomba!

O grupo de shows e as oficinas corporativas realizadas pela agremiação ainda não voltaram, assim como a procura para eventos de fim de ano está menor. Em paralelo, há conversas com patrocinadores aos poucos, considerados essenciais para conseguir bancar a estrutura necessária para desfilar (segurança, trio elétrico e outras peças que se tornaram essenciais com o crescimento do carnaval de rua).

Já na produtora Pipoca, responsável por sete desfiles paulistanos em 2020 (incluindo os de Alceu Valença, Elba Ramalho e Monobloco), o momento é de retomar conversas e fazer pré-reservas. “A gente nem quer passar um sinal de confirmação”, diz Rogério Oliveira, fundador e gestor da empresa.

“Os números ainda precisam cair, caiu um avião por dia no Brasil em número de mortos (pela covid-19)”, lamenta. Ele conta que chega a contratar 100 pessoas por ano para o evento, mas que algumas que procurou trocaram de ramo devido ao impacto da pandemia no setor cultural.

Parte dos blocos não tem data para retorno de ensaios presenciais

Outros blocos paulistanos decidiram esperar um pouco mais antes de retomar as atividades presenciais. “O Ritaleena não ensaiou, não abrimos agenda. É uma conversa dentro do bloco e com outros”, comenta a musicista Alessa, uma das fundadoras. 

“A saúde vai ser a grande protagonista do carnaval de 2022. Em um outubro normal, a gente estaria ensaiando, procurando parceiros, marcas, fazendo captação de recursos…”, compara. No bloco, há dúvidas também sobre reduções na celebração. “(O bloco) Ainda está debatendo, geralmente temos dois desfiles, e a gente não sabe se vai manter os dois”, conta.

A Confraria do Pasmado também não tem previsão para voltar a ensaiar neste ano. “Temos um médico entre os nossos fundadores e, enquanto não tiver diminuição maior nos óbitos, a gente não vai provocar aglomeração”, aponta Bruno Ferrari, um dos diretores.

O bloco tem mantido um diálogo com fornecedores, apoiadores e afins, mas vai deixar para bater o martelo sobre a participação para mais perto do carnaval. Em geral, a preparação leva uns oito meses, mas agora pode ser deixada para janeiro. “A gente quer que a vida volte a ter coisas boas, mas tem que ser com responsabilidade.”

Há ainda uma outra possibilidade não desejável pelo bloco, mas cogitada a depender da situação pandêmica. Trata-se da realização de um desfile em um espaço ao ar livre, mas com acesso restrito, a fim de haver um controle sanitário dos frequentadores. “É melhor do que nada, mas, se tiver que esperar até 2023 para fazer o maior carnaval da história, a gente vai esperar", diz Ferrari.

Programação de 2022 estará concentrada em oito dias

O carnaval de rua estará concentrado em oito dias (os quatro de carnaval e os fins de semana anterior e posterior, ou seja, 18, 19, 26, 27 e 28 de fevereiro e 1º, 5 e 6 de março). Para 2022, a Prefeitura barrou a criação de novos desfiles para o sábado e domingo de pré-carnaval nas subprefeituras da Sé, de Pinheiros, da Vila Mariana e da Lapa, pois são os dois dias com mais apresentações anualmente. A mudança está no recém-lançado Guia de Regras e Orientações, que não faz nenhuma menção à pandemia. Na terça-feira, 19, a gestão autorizou a abertura do pregão para escolha de patrocinar do carnaval de rua, que será divulgado em novembro.

Antes da programação oficial e na rua, alguns blocos e produtoras farão eventos com a temática em espaços privados. O bloco Minhoqueens abriu, por exemplo, a venda de ingressos para uma festa de “comeback” para o começo de novembro. Além disso, para os primeiros meses de 2022, há ao menos dois festivais com blocos e artistas, o CarnaBloco e o Arena Carnaval. Ambos também abriram a venda de ingressos e incluem nomes como Leo Santana, Falasamansa, Dilsinho, Siga Bem Caminhoneira e Agrada Gregos, dentre outros.

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