WERTHER SANTANA/ESTADao
Filha de Juraci se deitou no chão da sala. “Deus a salvou.” WERTHER SANTANA/ESTADao

Escola Raul Brasil vive rotina de trauma um mês após ataque

Pais e alunos da escola onde 9 morreram relatam sensação de insegurança e cobram apoio. Secretário da PM nega que saída seja arma professores

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - A mensagem circulou pelo WhatsApp na manhã de uma quinta-feira. De tom alarmista, denunciava que dois homens, em atitude suspeita, davam voltas pela calçada da Escola Raul Brasil, em Suzano, onde as lembranças do massacre com dez mortos, ocorrido dias antes, nem sequer haviam esfriado. Os homens poderiam estar armados. Pior: e se planejavam um novo ataque? O texto era claro - o melhor era ninguém sair de casa. 

Sobrevivente da chacina, que completa um mês hoje, uma estudante de 16 anos olhou o celular assim que acordou e se pôs a chorar. A mensagem era falsa, mas quem estaria disposto a correr o risco? “Ela faltou à escola naquele dia e no dia seguinte. Eu não quis forçar. Para nós, adultos, foi muito difícil. Imagina para quem estava lá”, diz a mãe, Juraci Borges, de 55 anos.

Desses acasos, Juraci fez aniversário no dia 13 de março e não pôde comemorar. Nessa data, dois ex-alunos - armados com um revólver calibre 38, dezenas de munições, uma besta e um machado - invadiram a Raul Brasil e assassinaram oito pessoas. Cercado pela polícia, um dos autores matou o outro e depois cometeu suicídio. 

Embora exista um esforço para retomar aos poucos a atividade no colégio, pais e mães relatam uma rotina de traumas, aulas vagas e sensação de insegurança. Alguns alunos pediram transferência, outros vivem assustados - há quem prefira comer a merenda escondido no banheiro. Dois professores pediram licença. De 11 estudantes feridos, nove não voltaram. 

Um grupo de pais chegou a se mobilizar em uma vaquinha para contratar um segurança particular para o colégio, mas depois desistiu da ideia. 

“Ela preferiu continuar na escola por causa das amigas”, diz Juraci. No ataque, a filha estava na cantina e pensou que haviam estourado uma “bombinha”. Quando se virou, viu um dos atiradores, a arma na mão, vestindo uma máscara preta.

A jovem conseguiu correr e, aos tropeços, foi puxada por uma amiga para a sala de aula. O professor montou barricada e mandou todos deitarem, sem fazer barulho. “Foi Deus quem salvou minha filha”, diz Juraci.

Segundo relata, nos primeiros 15 dias a filha só conseguia dormir se estivesse acompanhada. Também se assusta com barulhos (uma porta batendo) e não vai mais sozinha à escola. “Essas crianças vão demorar muito para se recuperar.”

Mãe de outra estudante, Regiane Oliveira diz que a filha já passou por três psicólogos. “Está tomando antidepressivo e calmante. Tem dificuldade para dormir e se alimentar.”

Tentando escapar dos tiros, a garota caiu e acabou pisoteada por colegas. Ela sofreu lesões no rim, passou por cirurgia e ficou internada em estado grave. Ainda não retornou à escola.

Trauma

A aposentada Maria da Conceição Nascimento, de 68 anos, estudou na Raul Brasil na década de 1960. “Era maravilhoso. Você vê aquele muro bem alto agora, mas na minha época era uma muretinha”, diz. “Ninguém ficava com medo.”

Matriculado no Espanhol, seu neto, de 15 anos, só pisou de novo por lá para buscar seu material. “Ele diz que não volta nunca mais, não gosta nem de tocar no assunto”, conta. “A segurança não mudou.”

Lilian Lima, de 39 anos, é mãe de um jovem que fazia terapia antes da tragédia. “Ele regrediu, voltou a roer unha, a manifestar TOCs (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Toda lembrança, choramos juntos”, conta. “Meu filho teve de pular corpos no chão. Ele disse que nunca mais ia esquecer o rosto do menino baleado.” Neste mês, foi difícil receber auxílio psicológico: “Só conseguimos terapeutas voluntários”.

Cobranças

Organizados pelo WhatsApp, ela e outros pais cobram medidas do Estado. Por conta própria, também estão juntando dinheiro para pagar uniformes e carteiras de identificação - uma tentativa para evitar a entrada de estranhos. “O controle de acesso ainda está falho”, diz Fábio Vilela, pai de um aluno. 

Pessoas ligadas à Raul Brasil afirmam que dificilmente a tragédia seria evitada mesmo com maior controle de entrada - os atiradores eram ex-alunos.

Até agora, a investigação da Polícia Civil e do Ministério Público levou à apreensão de um terceiro jovem, acusado de participar do planejamento, e à prisão temporária de três homens, suspeitos de negociar as armas. Responsável pelo inquérito, o delegado Alexandre Dias diz que a prevenção começa em casa: “A família deve ficar atenta aos filhos e perceber qualquer conduta fora da normalidade”

Como está a investigação

- Os autores

G.T.M., de 17 anos, idealizador e líder do ataque, agiu ao lado de Luiz Henrique de Castro, de 25 anos. Outro jovem foi apreendido depois, suspeito de participar do planejamento.

- A motivação

Os autores se inspiraram no massacre de Columbine, nos EUA, em 1999, que terminou com 15 mortos.

- A dinâmica

O plano seria matar ao menos um desafeto de cada. Por isso, um tio de G. T. M. foi assassinado fora da escola. Um vizinho de Luiz escapou. Já o alvo do menor apreendido seria o estudante que ficou com o machado encravado no ombro. Ele sobreviveu.

- Financiamento

O ataque custou R$ 7 mil, pagos por Luiz. À família, ele dizia que estava juntando dinheiro para comprar um carro. O valor inclui mais de 20 dias de aluguel de um automóvel usado no ataque, onde as armas foram guardadas.

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Equivalência bélica não vai resolver a insegurança nas escolas, diz secretário da PM

Um mês após ataque em Suzano, coronel diz que saída não passa por armar os professores. Oficial diz que rondas foram intensificadas nos colégios

Entrevista com

Coronel Alvaro Batista Camilo, secretário executivo da Polícia Militar

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 03h00

O secretário executivo da Polícia Militar de São Paulo, o coronel Alvaro Batista Camilo, afirma que o Estado intensificou rondas escolares e aposta em tecnologia e em informação da comunidade para evitar novas tragédias, como a da Escola Raul Brasil, em Suzano. Sobre a proposta de armar professor, ele diz: “É uma bobagem”.

Após a tragédia de Suzano, muitos pediram mais policiamento nas escolas. O que foi feito?

Nossa primeira medida foi intensificar a ronda tanto em escolas estaduais quanto em municipais. Antes, a viatura aparecia na hora da entrada e da saída, agora passa mais vezes, fica por mais tempo. A Polícia Militar emprega 900 homens e 940 viaturas só na ronda escolar. Efetivamente, são 740 viaturas monitorando escolas do Estado inteiro. Cada viatura passa, em média, em oito colégios. E todas as outras guarnições – patrulhamento de área, Rocam, polícia de trânsito – foram orientadas a dar atenção sempre que passar na frente de uma.

O governo do Estado discute um pacote de segurança para as escolas. Quais são as propostas?

Nós criamos uma linha direta entre a escola e a PM, que já está funcionando. Qualquer ocorrência na escola, agora, não passa mais pela triagem do call center: já cai direto para despacho de viatura. Também estamos estudando incluir as câmeras de monitoramento das escolas no programa Detecta. Não que a polícia vá ficar monitorando o tempo todo, mas se for identificado um problema, ela já pode fazer o acesso remoto.

As escolas terão controle de acesso, com portão eletrônico e raio X, por exemplo?

Precisa ter um mínimo de controle, que pode até ser a figura do coordenador de ensino ou do inspetor. Individualmente, está sendo elaborado um estudo de vulnerabilidade das escolas, para saber a necessidade real de cada uma. Então há quem discuta colocar portão eletrônico, isso seria mais para o futuro. Outras falam em contratar um PM aposentado para trabalhar de inspetor e morar na escola. É discutido.

Nos EUA, chegou a ser discutido armar o professor na sala de aula. Essa proposta pode ser trazida para São Paulo?

Isso é uma bobagem, não deve ser feito. Armar o professor para dar segurança em sala de aula, não. Se o professor quiser se armar por proteção individual dele, é uma coisa. Mas para proteção da escola, não. A segurança vai ser propiciada com a comunidade envolvida e com todo mundo dando informação para a polícia. Não é com equivalência bélica que nós vamos resolver.

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'Raul Brasil tem uma história e precisa superar trauma', diz secretário da Educação

Rossieli Soares discute medidas para evitar novas tragédias e afirma que planeja fazer "uma grande reforma" na escola que foi palco do massacre

Entrevista com

Secretário estadual da Educação, Rossieli Soares

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 03h00

Em entrevista ao Estado, o secretário estadual da Educação, Rossieli Soares, discute medidas para evitar novas tragédias e afirma que planeja fazer "uma grande reforma" na Escola Raul Brasil, que foi palco do massacre. "A Raul Brasil é um capítulo importante, porque viveu um trauma muito acima do que qualquer outra de São Paulo"

Quais medidas são pensadas para segurança nas escolas?

Estamos discutindo com especialistas um pacote não só na área de segurança. Vai desde pequenas melhorias de infraestrutura, como implantar portão eletrônico com interfone, à melhoria de procedimentos. Precisamos olhar a raiz do problema. Não adianta ter mais segurança, sem discutir, por exemplo, como o currículo interage, como mapear a situação e não perder esses meninos na origem. Encontrando, inclusive, um meio de envolver a família.

E como colocar em prática?

Nas escolas de tempo integral, há experiência muito interessante de trabalho de projeto de vida. Na Educação, a gente precisa ter espaços para escutar o jovem e ajudar a direcioná-los. Saber qual é o sonho dele e como a escola pode interagir. Precisamos trazer  o acolhimento para toda a rede.

Na Raul Brasil, há relatos de aulas vagas e alunos que não voltaram. O que, efetivamente, foi feito nestes 30 dias?

Há acompanhamento psicológico diário. Além disso, estamos fazendo um convênio com a prefeitura para instalar um botão do pânico e vamos contratar três psicólogos para trabalhar por dois anos dentro da escola. Reforçamos a equipe de professores, com quatro a mais, para cobrir ausências. A gente também busca melhorar o diálogo com a comunidade e ouvir todas as propostas dos pais.

E em relação à segurança?

A gente avalia colocar um portão eletrônico e segurança mais forte.  A escola já tinha câmeras, isso ajuda mas não resolve. Há  detalhes que podem  minimizar o risco, como diminuir o volume de pessoas que circulam na escola.  Investir em procedimentos digitais, por exemplo, evita que um ex-aluno ou algum pai precise entrar  só para solicitar um documento.

Psicólogos afirmam que é da natureza humana relacionar uma tragédia ao local em que ela aconteceu. O Estado estuda desativar a Raul Brasil ou construir uma nova escola?

Não. A parte de infraestrutura física já recebeu suporte, com mudança de espaços, inclusive por causa do trauma. Um piso foi pintado a pedido de alunos e professores. Estamos buscando ajuda da iniciativa privada, vai haver uma grande reforma. O projeto é para incluir áreas que hoje não existem, como auditório. É lógico que nós apoiamos quem não quer mais ficar lá, mas a Raul Brasil tem uma história e precisa superar o trauma, com as medidas certas. Isso leva tempo.

O sr. afirmou que a escola precisa se aproximar do aluno e da família. No caso do massacre, dois dos três responsáveis tinham pais ausentes, com problemas com droga e passagem pela polícia. A escola falhou ao não preencher a ausência da família? Qual a culpa do Estado pelo ataque?

Não entendo que a escola possa ser responsabilizada pelo que aconteceu. A Constituição Federal diz que é da família e da escola o dever da educação. Na escola, não necessariamente existe a manifestação desses traços, vamos dizer assim, de psicopatia. Com o menino mais novo, por exemplo, a único ocorrência era de chegar atrasado. A gente precisa do conjunto da família e da sociedade para nos auxiliar.

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