ESCOLA LEVARÁ À SAPUCAÍ 'ADÃO E EVA' NEGROS

Caprichosos de Pilares explora sensualidade de casal e fala sobre fanatismo

O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2013 | 02h03

Adão e Eva já desfilaram pela Marquês do Sapucaí em diversos carnavais do Rio, mas neste ano, pela primeira vez, os personagens bíblicos serão representados na avenida por um casal de modelos negros. A novidade integra uma alegoria da escola Caprichosos de Pilares, que se apresenta no sábado de carnaval pela segunda divisão dos desfiles.

A escola prepara uma ala que representará o Jardim do Éden, com direito a serpentes e maçãs e com o casal vestindo apenas tapa-sexo em formato de folhas.

Afastada do Grupo Especial do Rio desde 2007, a Caprichosos vai desfilar o enredo Fanatismo: Enigma da Mente Humana, sobre diferentes formas de exageros e adoração na sociedade.

Os personagens bíblicos serão destaque em uma ala sobre o fanatismo do amor, no qual o foco são a sensualidade e as paixões extremadas. Adão e Eva desfilarão em um tripé com cinco metros de altura, logo atrás do carro abre-alas.

O cenário será uma árvore, com galhos e raízes formados por corpos entrelaçados, envolvida por serpentes e muitas maçãs e balões em formato de coração. Ao redor do tripé, dez passistas farão uma coreografia sobre patins, simbolizando casais como Cleópatra e Marco Antônio, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, entre outros. "Será uma representação do paraíso com referências sacanas e irreverentes", diz Amauri Santos, carnavalesco da Caprichosos de Pilares.

A escola, no entanto, nega qualquer pretensão de polemizar ou de levantar bandeiras com a alegoria com referência bíblica. "Por que não negro? O negro tem sensualidade. A escolha aconteceu pela beleza na composição do enredo", diz Santos.

O casal. A missão de representar Adão e Eva será desempenhada pelo técnico de contabilidade Willians Marins, de 34 anos, e pela técnica de seguros Aimé Lopes, de 23. Ela desfilará pela primeira vez e já sem roupas. "Estou focada, treino muito, mudei a alimentação, é uma responsabilidade", diz a modelo.

Passista desde os 9 anos de idade, Marins defende a ideia da Caprichosos, mas prefere desconversar sobre as alusões da alegoria à sensualidade.

"Vai ser muito interessante quebrar a visão de que Adão e Eva eram loiros de olhos azuis. É uma oportunidade para ocupar um lugar de destaque no carnaval onde poucos negros estão", diz Marins.

Discussão. Ainda em fase de montagem no barracão da escola na Cidade do Samba, no centro do Rio, a alegoria já causa controvérsia. A Arquidiocese do Rio não se opôs, mas ativistas do movimento negro questionam o estereótipo da sensualidade.

Para Cláudia Vitalino, presidente da ONG União dos Negros pela Igualdade (Unegro) no Rio, a alegoria reproduz "uma visão distorcida e preconceituosa. Vamos acompanhar para garantir que não haja desrespeito à identidade cultural." / A.P.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.