Escavação do metrô dá outra visão do passado

Ampliação da Linha 5-Lilás provoca nova descoberta arqueológica em Santo Amaro

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

 

Trabalho delicado. Equipe continua em busca de novos itens históricos no canteiro de obras da Estação Adolfo Pinheiro

 

 

 

 Uma outra São Paulo está enterrada sob a Avenida Adolfo Pinheiro, em Santo Amaro, na zona sul. Essa cidade antiga pouco a pouco volta à tona, graças ao prolongamento da Linha 5-Lilás do Metrô. Nas últimas semanas, a equipe de escavação se deparou com um tesouro arqueológico: frascos de remédio, uma pederneira, um urinol, centenas de peças de louça e vários outros utensílios domésticos deixados ali entre os séculos 18 e 19.

Os vestígios foram encontrados pela equipe que trabalha no canteiro de obras da futura Estação Adolfo Pinheiro, entre o Largo Treze e a Rua Conde de Itu. Segundo os arqueólogos, a análise das quase duas mil peças vai ajudar a montar um retrato mais fiel da vida na época.

Além das peças de cerâmica e porcelana - a maioria dos itens -, também há pesos de balanças, frascos de remédio, moedas de cobre e ossos de animais. "Como são objetos tão diversos, provavelmente esse local deveria ser usado para descarte de material, como um antigo lixão", explicou a coordenadora de Arqueologia da obra, Rucirene Miguel. As marcas de carvão queimado encontradas na área de escavação reforçam essa hipótese.

Pela análise preliminar dos utensílios e da profundidade em que foram encontrados, a arqueóloga acredita que as peças sejam da segunda metade do século 18 e de todo o século 19. Mas há a hipótese de que alguns fragmentos de cerâmica remontem ao século 16, quando missionários jesuítas ergueram um aldeamento na região - quase tão antigo quanto o de São Paulo de Piratininga, origem de São Paulo.

Mais antigos. A datação correta, no entanto, só será feita quando as peças forem estudadas em laboratório. Enquanto isso, a equipe realiza a limpeza e a catalogação preliminar dos artefatos já encontrados em uma pequena sala ao lado do canteiro de obras. Os pesquisadores acreditam que podem haver objetos ainda mais antigos nas camadas mais profundas e, por isso, a escavação continua.

O grupo é composto por uma historiadora, que estuda os registros fotográficos e escritos de Santo Amaro para levantar as fases de ocupação e o contexto social de quando os objetos foram utilizados. Depois, os objetos devem ser expostos ao público.

PARA LEMBRAR

Trilhos já foram redescobertos

Há dois meses, os trabalhadores do Metrô já haviam esbarrado nos antigos trilhos do bonde que ligava a região de Santo Amaro à Sé, a poucos metros de onde agora foram encontrados os utensílios.

Os trilhos estavam enterrados a apenas 20 centímetros de onde hoje passa o asfalto, ao lado do antigo pavimento de paralelepípedos da via. A linha funcionou entre 1913 e 1968 e foi a última de São Paulo a deixar de operar.

PONTOS-CHAVE

História

Já se sabia que o local das escavações da Linha 5-Lilás tem alta relevância histórica, já que a ocupação na região de Santo Amaro é uma das mais antigas de São Paulo.

Equipe

16

trabalhadores fazem a escavação em busca de mais objetos e nove arqueólogos fazem a catalogação preliminar dos artefatos.

Utensílios

A maioria dos objetos encontrados é de cerâmica ou porcelana - são panelas, potes, tigelas, pratos e jarros. Mas há itens de uso mais específico, como pesos para balanças.

 

 

 

 

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