ESCAPOU 12 VEZES DA MORTE. E VAI VIRAR FILME

"E isso salvou a minha vida." Esta frase é quase um bordão para o polonês Julio Gartner, judeu que sobreviveu ao Holocausto e adotou São Paulo como sua cidade após a Segunda Guerra Mundial. Em seu caso, sobreviver ao Holocausto é pouco. "Estive muito perto da morte por 12 vezes", conta. Por isso a repetição da mesma frase em uma tarde em que atendeu o Estado para tentar resumir em poucas horas seus 87 anos e meio de uma vida singular.

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h09

"Há vários tipos de judeus sobreviventes desse período: os que ficaram escondidos na Guerra, os que fugiram dos nazistas, os que ficaram nos guetos, os que passaram por campos de concentração e resistiram à morte... Julio passou por tudo isso, por todas as etapas do Holocausto. Sua história é especial", comenta Marcio Pitliuk, roteirista e diretor do filme Sobrevivi ao Holocausto, que conta a impressionante história desse polonês.

Durante 23 dias, no mês passado, Julio percorreu todos os pontos onde esteve durante a Segunda Guerra. O trajeto foi todo documentado pela equipe de Marcio. Orçado em R$ 1,5 milhão, o filme deve ser lançado no ano que vem - um longa para o cinema, uma versão para a televisão e uma minissérie em quatro capítulos. "Nunca antes alguém havia levado um sobrevivente de volta para fazer um filme com o percurso. Isso é inédito no mundo", diz Marcio. "Teremos um documento marcante que servirá para todas as próximas gerações ficarem muito atentas para que nem em pensamento algo semelhante possa voltar a acontecer", afirma o produtor do filme, João Pedro Albuquerque.

Relato. Quando os nazistas invadiram a Polônia, Julio tinha 15 anos e morava em sua cidade natal, Cracóvia, com os pais. Seus irmãos mais velhos fugiram para o leste, em área dominada pelos russos. Os pais decidiram não resistir e seguir as ordens, cada vez mais restritivas, dos alemães. Três anos mais tarde, em 1942, Julio resolveu fugir.

Foi para uma aldeia chamada Glewiec - que tem atualmente 260 habitantes. Lá ganhou a simpatia dos moradores e conseguiu permissão para se esconder, durante o dia, em um silo de cereais. Nas madrugadas, trabalhava nas plantações da vila. "Eles me deixavam um prato de comida do lado de fora da casa, como se deixa para um cachorro. E eu comia assim", recorda-se.

Essa rotina durou nove meses, até que um de seus irmãos retornou do lado russo e o convenceu a irem para um gueto - circunscrições criadas pelos nazistas para isolar os judeus. Os dois irmãos não se separariam mais durante a Guerra.

"Fomos para o Gueto de Cracóvia. Era março de 1943. Ficamos lá apenas 10 dias, porque em seguida veio a decisão dos nazistas de liquidarem o local e nos levar para campos de concentração", explica Julio. "É o (filme) A Lista de Schindler. É a minha história."

A próxima parada dele foi Plaszow, um campo de trabalho onde foi designado para serviços de alfaiataria. "Consertávamos os uniformes militares dos alemães e remetíamos de volta às frentes de batalha", diz.

Depois de outros penosos nove meses, veio nova ordem: o campo seria evacuado e todos os prisioneiros encaminhados, de trem, a outro campo. "A viagem foi terrível. Ficamos dois dias em vagões de carga, amontoados, sem água, sem comida, sem higiene nenhuma, as pessoas fazendo as necessidades ali mesmo. Alguns morreram pelo caminho e os corpos ficaram entre os vivos. Terrível, terrível", recorda-se. Houve uma escala de 24 horas no campo de concentração de Auschwitz. Dali, metade dos vagões foi destinada ao crematório. Julio, na outra metade, escapou.

Foi para o campo de Mauthausen, na Áustria. "Lá funcionava uma academia de como destruir um ser humano. Meu trabalho era carregar pedras pesadas em uma escadaria irregular o dia todo. Levava para lá, mandavam trazer de volta. Trazia, mandavam levar de novo. Depois de fazer isso o dia todo, um trabalho tão duro e inócuo, a mente humana pifa", comenta.

Dez dias depois, nova transferência. Desta vez para o campo de Melk, também na Áustria. "O serviço era a construção de túneis. Foram sete meses", lembra. De lá, nova evacuação, nova transferência. "Subimos de navio pelo Rio Danúbio até certo ponto. Depois, quando faltavam 70 km para chegar ao campo de Ebensee, nos mandaram caminhar. Era a Marcha da Morte, onde eles iam executando aqueles que, debilitados, não aguentavam o trajeto."

Chegando lá, enfrentou dificuldades ainda maiores. "Depois vim a saber que era um dos campos com maior mortalidade durante a Guerra, cerca de 25% de mortos por semana. Nossa comida diária era um oitavo de pão e um pouco de sopa de batata rala, uma água suja."

A salvação veio dos céus. Um bombardeio obstruiu um importante nó ferroviário da região e o comando do campo solicitou mão de obra para ajudar a liberar a via. Julio foi. Entre os destroços, trens de carga carregados de farinha, açúcar e outros alimentos. "Era a comida que não tínhamos. E isso salvou a minha vida."

Duas semanas após sua entrada nesse campo, veio a rendição alemã. Em 7 de maio de 1945, Julio estava livre. Com o seu irmão e outros tantos prisioneiros.

Era tempo de reconstruir sua vida. Nunca mais viu seus pais, muito provavelmente mortos pelos nazistas. Não quis voltar a viver na Polônia. Passou uma temporada na Itália, onde soube, por carta, que seu irmão mais velho também sobrevivera. E estava de malas prontas para o Brasil. Não teve dúvidas: também veio embora para São Paulo. "Quando pisei aqui, tive a certeza de que seria o meu país, a minha terra", conta, com indisfarçável brilho nos olhos.

Na capital paulista trabalhou com confecções por 35 anos - primeiro como funcionário, depois como empresário do ramo. Casou, teve dois filhos, quatro netos. Mora em Higienópolis. Aos 87 anos, joga tênis no clube A Hebraica três vezes por semana e frequentemente se diverte no carteado com os amigos. Está ansioso para ver o filme pronto. Mas não tem planos de se tornar um astro de cinema. "Fiz isso para que as pessoas vejam o que foi a Segunda Guerra. Uma história como essa não pode acontecer nunca mais."

A incrível história de Julio Gartner, judeu que adotou SP depois da 2ª Guerra

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