Esburacado, calçadão do centro vira polêmica

Entidades defendem retirada de mosaico português, mas moradores são contra

Luísa Alcalde/ JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2010 | 00h00

Intransitável. Calçada da Rua João Brícola: centro tem um buraco a cada oito passos    

 

A cada oito passos, o paulistano encontra um buraco nos calçadões do centro da capital. Nos 4,7 quilômetros de extensão dos 20 passeios públicos da região, por onde passa diariamente 1,5 milhão de pessoas, a Aliança pelo Centro Histórico, uma espécie de zeladoria urbana, registrou 735 buracos no piso de mosaico português em um levantamento na segunda-feira.

O tráfego autorizado de veículos pesados como carros-forte, viaturas policiais ou da Guarda Civil Metropolitana (GCM) ou de caminhões de lixo é apontado como vilão e responsável pela buraqueira, segundo Orlando Junior, coordenador da Aliança. "O piso irregular provoca muitas quedas e acidentes. Não é raro vermos pessoas caídas quase que diariamente."

Embora solicitado por escrito pela reportagem com 24 horas de antecedência, a Assessoria de Imprensa da Subprefeitura da Sé não informou, no final da noite de ontem, quanto a Prefeitura gasta, por mês, com a manutenção dos calçadões. Em 2008, o então subprefeito Amauri Pastorello disse que eram gastos dos cofres públicos cerca de R$ 1,5 milhão por ano só nessa tarefa.

Uma equipe terceirizai com dez funcionários conserta de 10 a 15 metros quadrados por dia, mas surgem novos buracos. "A Prefeitura faz um trabalho quase artesanal, colocando pedra por pedra, mas é só passar um caminhão por cima que o buraco volta na hora", diz Júnior.

Troca do piso. Por esses motivos, a Associação Viva o Centro considera o mosaico português inadequado e defende a mudança para um tipo de pavimento mais resistente. "Pode até ser o de concreto pré-moldado como as calçadas da Avenida Paulista", afirma o superintendente geral da entidade, Marco Antônio Ramos de Almeida.

O vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo, Roberto Mateus Ordine, também defende a troca. Até o urbanista Cândido Malta - que já foi a favor da instalação do mosaico português nesse tipo de passagem - hoje também defende a troca pelo concreto pré-moldado. "A manutenção é mais fácil e mais barata, além de ser mais seguro para a população."

Na oposição está a maioria da população paulistana. Duas pesquisas feitas pela Associação Viva o Centro com o Centro Universitário Belas Artes, em 1998 e em 2008, revelaram que o mosaico português conta com total aprovação dos moradores. "Trata-se da alma do centro paulistano e da cidade", diz o chef Olivier Anquier, morador da região da República. "(A troca) vai descaracterizar uma região que precisa ser valorizada. Se colocar concreto, a cidade vai ficar ainda mais cinza e feia."

A Prefeitura diz não haver projeto para reformar ou trocar o piso dos calçadões, mas não descarta a possibilidade. A intervenção teria de ser submetida aos órgãos de patrimônio histórico porque o centro é tombado.

Para o presidente da ONG Defenda São Paulo, Heitor Marzagão Tommasini, as concessionárias de serviços de água, gás e eletricidade, os bancos e as empresas de lixo deveriam bancar a manutenção dos calçadões, já que os estragos muitas vezes são causados pelos veículos dessas empresas.

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