Era uma vez um tigre

Mais uma tragédia com crianças aconteceu no Brasil na última semana. Um garoto de 11 anos, que visitava o zoológico de Cascavel (PR) junto com o pai, invadiu uma área restrita, tentou acariciar e alimentar grandes felinos e acabou sendo atacado por um tigre. Ele precisou de uma cirurgia para amputação do braço.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2014 | 02h02

Se o caso foi apenas um breve descuido paterno, ou uma atitude irresponsável, não estava claro até o momento em que essa coluna foi fechada. Segundo as reportagens publicadas, o pai teria sido avisado por outros visitantes que seu filho corria risco, mas pareceu ignorar os apelos. Alguns depoimentos ainda sugeriram que seria difícil o menino ter acessado à área proibida sem ajuda de um adulto. A checar.

Mas o que chama a atenção, qualquer que tenha sido a causa do acidente, é a dificuldade que uma criança de 11 anos e que um pai de 43 têm em lidar com a questão dos limites. Se existe uma proibição de acesso é porque há riscos óbvios, que devem ser respeitados. No imbróglio que se transformaram as relações familiares, para muitos pais dessa geração parece difícil entender que limites são fundamentais, em casa e na rua.

A importância de o pai exercer seu papel na formação e proteção dos filhos é assunto central de dois filmes excelentes que estrearam na última semana aqui em Londres. No primeiro, Boyhood (Da Infância à Juventude), com estreia prevista no Brasil para 30 de outubro, a vida de um garoto é acompanhada dos 6 aos 18 anos. O curioso é que o diretor Richard Linklater (da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do sol e Antes da Meia-Noite) usou os mesmos atores, ao longo de 12 anos de filmagem. A cada ano, alguns dias eram dedicados à continuação da filmagem. O resultado é que as mudanças físicas graduais dos personagens são acompanhadas de forma contínua.

No filme, o garoto (Mason) é criado por uma mãe que não segurou a relação com um pai ausente e sonhador, que aparecia apenas de tempos em tempos, para dar sinal de vida. Na tentativa de "reconstruir" uma família, ela acaba buscando novas relações estáveis com homens agressivos e autoritários, que mais atrapalham do que ajudam na formação das crianças. Resignada, depois de tantos atropelos, ela resolve seguir a vida sozinha. Nesse meio do caminho, o garoto, com muita resiliência e coragem, vai enfrentando questões como bullying, sexualidade, álcool e drogas. Como a vida teria sido muito mais fácil com um pai ou uma figura paterna que tivesse ajudado nas barras que aparecem pela frente!

No segundo filme, Joe, com lançamento previsto para o Brasil em janeiro de 2015, Nicolas Cage (Joe) faz exatamente o papel da figura paterna que vem de fora e transforma a vida e o destino de um garoto (Gary), no interior profundo dos Estados Unidos. Vindo de uma família completamente disfuncional, com histórias em casa de alcoolismo, violência e abuso sexual, o jovem tem tudo para se tornar uma pessoa agressiva e passar a expressar sua ira de forma perigosa.

Joe, ex-presidiário, sem filhos, impulsivo e potencialmente violento, quer evitar que o garoto siga o mesmo destino e constrói uma relação de confiança e de suporte com Gary, ajudando-o a atravessar essa fase turbulenta de sua vida. Aqui, a proximidade com um "pai" emprestado no mundo, que exerce forte influência positiva, fez toda a diferença.

O papel paterno está definitivamente em xeque. Na última semana, o jornal inglês The Telegraph trouxe um relatório inédito que mostra que hoje 43% dos jovens ingleses vivem sem o pai em casa. Até 2020, esse número deve subir para 50%. No Brasil, diferentes pesquisas indicam que esse índice varia hoje de 20% a 30%. Será que viveremos em uma cultura de pais "descartáveis", pergunta o jornal? O estudo afirma que filhos de pais separados têm chances maiores de enfrentar dificuldades emocionais e escolares. Se isso é verdade, a presença do pai, depois da separação, é ainda mais vital. Mesmo longe é possível e importante estar por perto, exercendo o papel de pai, para evitar que tigres e dragões cruzem o caminho das crianças.

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