Reprodução Facebook/Arquivo familiar
Reprodução Facebook/Arquivo familiar

'Era uma energia que não se continha', diz mãe sobre filho que morreu baleado no Reveillón

Mãe de Arthur, de 5 anos, morto com uma bala perdida no réveillon, relata dor da perda súbita

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Descrito como brincalhão, o menino Arthur Aparecido Bencid Silva, de 5 anos, não parava quieto. Segundo parentes, gostava de correr, jogar futebol e, com tanta energia a gastar, tinha dificuldade para se concentrar na escola. Irmão mais velho de Laura, de 2 anos, Arthur fazia bolhinhas de sabão para a caçula estourar, durante a festa de réveillon, quando de repente caiu de costas, desacordado e com forte sangramento na cabeça. Uma bala perdida, soube-se depois, havia encontrado o garoto.

O autor do disparo que matou Arthur – muito provavelmente feito para cima – segue um mistério para a Polícia Civil de São Paulo. Investigado como homicídio, o crime aconteceu às 0h10 em uma casa na Avenida Doutor João Guimarães, Vila Sônia, zona sul. “Ele era uma criança muito amorosa, tinha uma energia que a gente não sabia conter. Era alegre, feliz e arteiro. Um amor de criança”, diz a mãe, Valéria Aparecido, de 34 anos. “Eu tinha mais a aprender com ele do que a ensinar.”

Arthur nasceu de uma gravidez inesperada. Os pais, que se conheceram em uma academia do Jaraguá, na zona norte, haviam começado a namorar poucos meses antes, em 2011. A mãe, professora de Educação Física, dava aula lá. O pai, eletricista, era aluno. Os dois resolveram casar durante a gestação.

Três anos depois, Laura nasceu. “Ela já perguntou dele, dá até impressão de que sabe de alguma coisa”, diz Valéria. “A gente responde que o Arthur virou um anjinho e foi iluminar e proteger nossa família lá de cima, junto de Papai do Céu.”

Crime. A família já havia passado o réveillon anterior na casa onde Arthur foi atingido, que pertence a um primo de Valéria. “Eu sempre me perdi para encontrar a rua”, contou David Santos da Silva, de 33, pai do garoto, quando prestou depoimento no dia 3, no 89.º Distrito Policial (Portal do Morumbi), responsável pelo caso.

Na ocasião, havia cerca de 30 pessoas na festa. David estava perto de Arthur, viu o filho cair “como se tivesse uma convulsão” e o apanhou nos braços. Dentro da casa, Valéria não notou a agitação. “Minha cunhada entrou e disse que Arthur tinha caído feio e que precisava pegar gelo. Aí, vi as pessoas em volta do meu marido, que tinha pegado ele do chão, sangrando muito. Vi essa cena de longe e não aguentei. Fiquei ruim na hora.”

Parte da família saiu, de carro, para levar o garoto a um hospital próximo. A unidade, no entanto, não contava com UTI e Arthur esperou 6 horas até conseguir uma vaga em outro local, em Taboão da Serra. “Eles contaram que tinha um projétil na cabeça do Arthur. Eu morri naquela hora.”

O menino teve a morte confirmada na madrugada do dia 2. O laudo necroscópico apontou que Arthur foi atingido por uma bala de calibre 38 na parte superior do crânio. No mesmo dia, um suspeito foi detido, mas depois liberado. Um exame de balística mostrou que o disparo não partiu do revólver que esse homem portava.

“Queremos que o real culpado seja preso, não qualquer pessoa só para tentar acabar ou amenizar a situação”, disse David, na ocasião. Na delegacia, os pais disseram não ter ideia de quem pode ter apertado o gatilho. Disseram, entretanto, que o disparo não partiu de ninguém que estava na festa. “Não sei o que a pessoa queria comemorar (atirando para cima), ainda mais neste País, nessa situação que está”, afirmou David.

Agitado. Nas palavras de Valéria, há crianças com quem “é preciso falar uma vez” e há as “que é preciso falar duas ou três vezes”. Arthur era do segundo tipo. “Ele era de sair tropeçando, batendo nas coisas. Mas caía, levantava e não ficava chorando.” Também era fã de super-heróis, em especial o Homem de Ferro e o Hulk. No futebol, torcia pelo Corinthians, assim como os outros membros da família.

Matriculado em uma escola municipal do bairro, gostava de ir ao colégio para brincar. Sabia escrever o próprio nome, os dois pais e o da irmã, mas seria alfabetizado somente neste ano.

“Ele deu um pouco de trabalho por causa da energia, mas nada demais”, diz Valéria. “Tinha dificuldade de concentração: a professora pedia para sentar, para fazer uma leitura, era difícil ele ficar parado.” E o que ele queria ser quando crescesse? “Ele não chegou a falar, Arthur era muito criança.”

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