Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Era para ficarem um ano. Mas já estão há 21

478 famílias ocupam cinco alojamentos que seriam provisórios, mas acabaram esquecidos

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

Em 1989, as obras da Estrada do M"Boi Mirim, na zona sul da capital paulista, expulsaram Manuel Soares da Silva da casa onde morava, em uma área ocupada. O operador de máquinas, hoje com 66 anos, acabou instalado no alojamento Paranapanema, nas proximidades, que deveria ser provisório por alguns meses. Mas, 21 anos depois, cem famílias do local ainda esperam por moradia definitiva.

Em todo o Município, já há 478 famílias vivendo em alojamentos que teriam de ser provisórios, mas acabaram esquecidos pelo poder público.

Até semana passada, São Paulo tinha seis alojamentos localizados nas zona sul e leste. Um deles foi extinto na sexta-feira - não pela Prefeitura, mas pelo incêndio que atingiu a Favela Real Parque, no Morumbi, zona sul, destruindo as 64 moradias do alojamento e outros 260 barracos. Com um inquérito civil instaurado em 2009 para investigar todos os abrigos provisórios instalados na cidade, o Ministério Público Estadual decidiu também apurar o incêndio ocorrido no local.

O alojamento no Real Parque foi criado em 2003 para atender vítimas de um outro incêndio na mesma favela. Deveria ter durado um ano, mas, por desentendimentos entre moradores e Prefeitura, a situação já se arrastava havia oito anos. O laudo que apontará as causas do incêndio na Real Parque deverá sair só em 30 dias.

O promotor Raul de Godoy Filho, que preside o inquérito, pediu ontem esclarecimentos à Secretaria Municipal de Habitação e à Subprefeitura do Butantã (responsável pela área), que terão 30 dias para enviar as respostas.

Descaso. "Ficamos chocados em saber que algo que deveria ser provisório se torna definitivo por um total descaso do poder público. Só depois que acontece uma tragédia é que se vai buscar soluções", diz Godoy, da Promotoria de Habitação e Urbanismo da Capital. "Queremos cobrar a remoção dessas pessoas para endereços adequados." A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros também deverão responder a questionamentos sobre a segurança existente no local.

No Paranapanema, onde mora Silva, não existem equipamentos de segurança e as construções apresentam rachaduras. "Ainda não sei o que farão conosco. Com o tempo, invadiram um terreno ao lado e tudo ficou mais perigoso", diz ele, ao lado da mulher e dos dois filhos.

O adensamento em torno dos alojamentos é um problema comum. No Jacaraípe, na Vila Prudente, zona leste de São Paulo, as cem unidades do alojamento criado em 2003 foram praticamente engolidas pela favela. Vítima de um incêndio que ocorreu no local há oito anos, Djanira Cavalcanti, de 51 anos, foi levada ao alojamento. Mora com o marido desempregado, os três filhos e os quatro netos no único cômodo da casa. "Gostaria de ter algo maior, mas pelo menos aqui não tem risco de desabar", diz ela, que é cozinheira.

No alojamento Jardim São Carlos, localizado na Vila Jacuí, zona leste, a situação é mais extrema. As 36 famílias remanescentes do alojamento criado em 1995 com 186 unidades vivem entre goteiras e fios de energia embolados dentro de casa. O esgoto ainda escorre ao ar livre porque o encanamento entupiu há tempos.

Enxada. "Minha vida é tacar a enxada na frente de casa, para ajeitar o caminho pelo qual passa o esgoto", diz a desempregada Iara da Silva, de 43 anos.

Há dez anos no local, ela vive com o marido e os 11 filhos no cômodo onde cabem apenas uma cama de casal, uma de solteiro, um sofá, uma estante e um banheiro (cujas paredes não vão até o teto). "Antigamente, usávamos banheiros coletivos. Foi a gente que construiu esse aqui", conta Iara.

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