Equipe do 'Estado' é abordada por traficantes na Maré ocupada

Jovens proibiram fotos no local; general da Força de Pacificação admitiu que região ainda abriga 'bandidos'

Marcelo Gomes / RIO, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2014 | 02h04

Apesar da ocupação iniciada sábado com 2.500 militares do Exército e da Marinha, além de 200 PMs, traficantes mantêm poder sobre territórios do complexo da Maré, na zona norte do Rio. Às 10h de ontem, primeiro dia útil após a substituição da PM pelas Forças Armadas no patrulhamento da região, a equipe de reportagem do Estado foi abordada por três traficantes enquanto circulava pela Vila dos Pinheiros, área de atuação do Terceiro Comando Puro (TCP).

No domingo, por volta das 14h, enquanto outra equipe do jornal apurava uma agressão a um morador da favela Nova Holanda, na divisa com a Baixa do Sapateiro (de facções rivais), um grupo de aproximadamente dez homens atirou três pedras na direção do carro usado pela reportagem. O grupo não chegou a abordar a equipe, mas fez sinais exigindo que os profissionais fossem embora dali.

No episódio de ontem, os jornalistas estavam no carro de reportagem, com identificação, quando os três traficantes, um deles com pistola, deram sinal para parar. O fato ocorreu numa rua paralela à Linha Vermelha, uma das principais vias expressas da cidade. As duas vias são separadas apenas por uma mureta. O local da abordagem fica a cerca de 200 metros da praça da Vila dos Pinheiros, onde havia militares da Marinha e PMs. É a mesma praça onde foram hasteadas as bandeiras do Brasil e do Estado do Rio e onde foi montada a base do Batalhão de Choque da PM depois da ocupação da Maré, na madrugada de 30 de março.

Um dos jovens, que estava com uma arma na cintura, perguntou o que os repórteres estavam fazendo. Depois que os jornalistas disseram que estavam procurando viaturas das Forças Armadas patrulhando a região para fazer fotos, outro rapaz, que segurava um radiotransmissor, disse que "estava tudo tranquilo". E pediu para que os repórteres não fizessem fotos do trio. O carro, então, foi autorizado a seguir viagem, mas foi seguido por alguns minutos pelo rapaz armado.

Ontem, homens com radiotransmissores circulavam por vielas da favela Parque União, área controlada pelo Comando Vermelho (CV).

Represálias. Ontem, moradores ainda evitavam falar com jornalistas, com medo de represálias. Segundo as agências de inteligência, uma senhora teve as pernas quebradas e uma jovem foi estuprada na frente da mãe por terem dado entrevista depois da ocupação da Maré pela Polícia Militar.

No domingo, o general de Brigada Roberto Escoto, comandante da Força de Pacificação da Maré, admitiu que as favelas ainda abrigam traficantes. "Alguns bandidos abandonaram a Maré, mas outros continuam aqui."

A Polícia Civil do Rio prendeu ontem o técnico de informática Egnaldo Araújo Gomes, de 43 anos, apontado como integrante do TCP, facção chefiada pelo traficante Marcelo Santos das Dores, o Menor P. (preso há duas semanas pela Polícia Federal). Segundo as investigações, Gomes cuidava do sistema de comunicação da quadrilha.

Balanço. O primeiro fim de semana de ocupação das Forças Armadas na Maré teve 11 detidos (três deles, menores). Seis adultos foram presos por suspeitas de ligação com o tráfico. Outros dois estavam num veículo roubado. Entre os menores, dois também estariam envolvidos com a venda de drogas.

De acordo com balanço divulgado ontem de manhã pela Força de Pacificação, os militares já apreenderam dez equipamentos usados para triturar cocaína, além de pequenas quantidades de crack, maconha e cocaína. Também foram apreendidos 242 cartuchos de pistola calibre 45, uma arma branca com inscrições de uma facção criminosa, três equipamentos de rádio e R$ 970 em espécie. Dois veículos roubados também foram recuperados. / COLABOROU FABIO GRELLET

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