Epidemia de crack no Brasil lembra os EUA em 1980

Ao amanhecer, centenas de viciados magérrimos, sujos, o olhar vidrado, surgem no bairro da Luz, no centro de São Paulo. Depois de rápidas transações com os traficantes, procuram apressados um pouco de privacidade para acender os cachimbos e inalar as pedrinhas que causam enorme dependência, vendidas pelo equivalente a US$ 5 cada (cerca de R$ 10).

JUAN FORERO , THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h06

O ambiente lembra Washington ou Nova York nos anos 1980, quando o crack dominava bairros inteiros e gerava um ciclo de violência enlouquecedor. Desta vez, a epidemia de crack ocorre no Brasil, alarma as autoridades e mancha a imagem cuidadosamente cultivada do País que hospedará dois grandes eventos esportivos mundiais: a Copa em 2014 e a Olimpíada em 2016.

Em todas as cidades do Brasil - de São Paulo ao Rio de Janeiro, a joia da coroa, passando por cidadezinhas na selva amazônica -, ao anoitecer enxames de viciados desesperados procuram a próxima dose nas cracolândias. E como na onda que varreu os Estados Unidos, o resultado é o mesmo: vidas e famílias destruídas, bairros inabitáveis.

"O crack é uma doença incurável", diz Paulino, de 50 anos, magro, de fala rápida, que não quer dizer o sobrenome, ao explicar seu apetite diário pela droga. "Preciso de crack no sangue."

Com cerca de 1 milhão de usuários de cocaína, o Brasil está sendo devastado por um problema que as autoridades brasileiras consideravam típico dos Estados Unidos. A população brasileira de 200 milhões de pessoas inclui uma nova e florescente classe média, que oferece mercado promissor aos traficantes, afirmam especialistas em controle da droga. "No Brasil, temos uma situação semelhante à dos Estados Unidos nos anos 1980", afirma Eloisa de Sousa Arruda, secretária de Justiça do Estado de São Paulo, que coordena a política de combate à droga. "Há grande crescimento do uso do crack."

O crack se espalhou nas cidades americanas em declínio, afetando principalmente comunidades habitadas por minorias. A reação dos EUA envolveu a prisão de viciados e traficantes. As autoridades brasileiras preocuparam-se em explicar que sua resposta é diferente. Elas consideram que a questão é de saúde pública, na qual o Estado tem papel fundamental no combate ao vício. "Não colocamos os usuários na cadeia", diz Leon Garcia, especialista em drogas do Ministério da Saúde. "Temos penas alternativas porque não acreditamos que a cadeia seja o melhor lugar para tratá-los."

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