Entulho do São Vito vira asfalto de 62 vias

Entre elas, está a Avenida Sapopemba, que tem 23 quilômetros e é a mais longa de SP

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2011 | 03h02

Localizada na zona leste, a Avenida Sapopemba é a mais longa via pública paulistana. E, até o fim do ano, cinco de seus 23 quilômetros vão receber uma pavimentação especial, feita com o entulho dos Edifícios São Vito e Mercúrio, os famosos treme-tremes que por anos marcaram a paisagem da Avenida do Estado e que acabaram de ser demolidos em maio.

O asfalto produzido a partir das ruínas dos prédios começou a ser aplicado entre os cruzamentos das Avenidas dos Sertanistas e Bento Guelfi em setembro e deve ser finalizado no mês que vem.

"Desde o ano passado, estamos reaproveitando as 64 mil toneladas de resíduos da demolição do São Vito, do Mercúrio e do entorno. No total, 62 ruas da cidade receberam ou receberão esse asfalto ecológico", explica o secretário adjunto das Subprefeituras Eugênio Pavicic, coordenador do projeto. Entre elas estão as Ruas Donato Álvarez, na Freguesia do Ó, zona norte, Nolina, em Guaianases, na zona leste, e Itapecoca, no Campo Limpo, na zona sul.

"Com essa matéria-prima, temos uma economia de 20% a 30% nos custos de pavimentação", diz Pavicic.

O processo de reaproveitamento do entulho começa com uma triagem. Pedras grandes são quebradas em pedaços menores, que depois passam por uma peneira que separa as pedras por tamanho. Dependendo da proporção, elas serão incorporadas a um determinado tipo de pavimentação (veja no infográfico ao lado).

O maior trecho asfaltado com o material do São Vito e do Mercúrio ficará justamente na Avenida Sapopemba, a um custo de R$ 9,9 milhões aos cofres públicos. E a via é, sem dúvida, a mais emblemática entre as 62 vias escolhidas pela Prefeitura para a experiência. Lá, tudo é superlativo.

Em números. A Sapopemba cruza nada menos que quatro subprefeituras da cidade, recebe um tráfego de 74 linhas de ônibus, tem cerca de dez "casas do norte" e 32 igrejas de tudo que é credo, de tudo que é santo. "Já mudei de religião três vezes. Mas todas as igrejas ficam a menos de cinco quarteirões de minha casa", conta a dona de casa Maria Aparecida Ramos, 53 anos, que mora nas redondezas há mais de duas décadas.

A avenida nasceu como estrada, no século 19. Era a principal ligação entre as chácaras e fazendas da região. No século seguinte, já urbanizada, conservou praticamente todo o sinuoso traçado original. Até 2004, tinha 45 quilômetros - começava na Avenida Salim Farah Maluf e terminava no município de Ribeirão Pires. De lá para cá, teve o percurso original encurtado - na verdade, alguns trechos receberam outros nomes. Mas continua sendo a avenida mais longa da cidade, com 23 quilômetros, em empate técnico com a Avenida das Nações Unidas, mais conhecida como Marginal do Pinheiros.

Portugueses. Um dos bairros cortados pela avenida é o homônimo Sapopemba. Surgiu por volta dos anos 1920, com o grande número de portugueses que ocuparam as chácaras da região - dedicavam-se ao plantio de hortifrútis, a granjas e a cultivo de flores para abastecer parte da cidade. Foram eles que ergueram a igreja católica dedicada a Nossa Senhora de Fátima - no início, uma capela; desde 1957, um santuário. Ao lado da então capela, foram construídas casas que deram início a um lento crescimento demográfico.

A partir dos anos 1950, grande número de nordestinos se fixou no bairro, que experimentou a maior onda de crescimento de sua história. Atualmente, vivem ali 285 mil pessoas.

Entre elas, o comerciante João Montilla, de 73 anos, que mora e trabalha na Sapopemba há tantas décadas que viu "o progresso", como diz. "Quando vim para cá, não tinha calçada ao lado da rua; era tudo terra", conta, saudoso. Ele tem um ferro-velho especializado em "máquinas e sobras industriais" - umas engenhocas difíceis de entender, por quem não é do ramo. "Tenho torno, plaina, fresa...", enumera.

O que para muitos é lixo transformou-se em Sapopemba no ganha-pão de Rodrigo Fascina e Anderson Alcasa, ambos de 32 anos. Eles se consideram irmãos e são sócios de uma empresa que compra (dos catadores) e vende sucatas para empresas de reciclagem.

Bom ponto. E tem também uma "fábrica de óculos" - nome de uma ótica que faz suas próprias lentes e armações. Mas, embora o atendimento comercial seja na avenida - há outras sete lojas da rede na capital -, a fábrica mesmo fica em outro endereço. "O ponto aqui é muito bom. Estamos há três anos neste endereço e só tenho elogios ao movimento", avalia o dono da unidade, Herbert Santos da Silva, de 27 anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.