Entrevista com o designer autodidata Arne Quinze

Arne Quinze é designer autodidata, artista, ex-grafiteiro, co-fundador e diretor de criação do estúdio Quinze & Milan, que cria e comercializa móveis, desenvolve projetos arquitetônicos e é, freqüentemente, contratado para participar de projetos de arquitetura como Seattle Central Library (2004), Utrecht University Library (2004), Wyly Theatre in Dallas (2009) and Korean Airlines Lounge, Seoul (2008). Ele também comanda o Studio Arne Quinze, agência de arquitetura e design baseada na Bélgica e que já realizou mais de 4 mil projetos de design em 60 países do mundo nas áreas de transporte, arquitetura, design de interiores, mobiliários, iluminação, moda, vídeo, música, calçados, urbanismo e instalações de arte. Arne desenha para as marcas Moroso, Swarovski, Onitsuka Tiger e Lamborghini. Em 2006, uma de suas instalações, "Uchronia", escultura gigante de madeira certificada, construída em pleno deserto de Nevada, ganhou a atenção do mundo quando foi queimada, como parte do Burning Man Festival. Em 2007 ele realizou os projetos "Magna" and "Skytracer" estudos futurísticos para o transporte, que foram apresentados na Abitare Il Tempo, feira de arte de Verona. Arne foi o primeiro artista a expor seus trabalhos na recém aberta galeria Pierre Bergé & Associés, na Bélgica. A Lei Cidade Limpa trouxe um efeito colateral: fachadas mal-conservadas de prédios velhos ficaram à mostra, escancarando uma feia realidade. Em sua opinião, como isso pode ser solucionado?No futuro não vamos ter que pensar mais sobre soluções para esses problemas. Minha Bidonvilles, por exemplo, são as casas do futuro, em camadas e hierarquizada. Tudo ficará mais rápido lá, as pessoas vão construir sem pensar nisso. Nós iremos viver acima e em torno um dos outros, porque vai ser escasso o espaço térreo. Atividades comunitárias irão prosperar e a coesão social será regra. As casas vão extrair toda a energia possível - vento, água, sol... - para satisfazer as suas próprias exigências, bem como as necessidades dos seus habitantes. Eles são os nômades do futuro. Em termos de design, quais são (e onde funcionam) as melhores soluções para o mobiliário urbano?A única coisa que estou interessado é em tocar as pessoas com o meu trabalho. Meu objetivo é devolver algo valioso para as pessoas: revitalização de um ambiente urbano com um novo espírito, uma nova atmosfera percebida pelos habitantes, dinamismo acontecendo. Em relação a cada paisagem urbana, nem um lugar para todas as mudanças arquitetônicas, nem instalações de arte excepcionais. Cada instalação faz com que as pessoas fiquem juntas.  Muito se fala em sustentabilidade hoje em dia. Como mesclar projetos eficientes em termos de urbanismo com tecnologias verdes? Por que tais projetos ainda são tão mais caros?Ainda estou me perguntando por que razão os nossos veículos ainda têm rodas e trabalham com gasolina. Por que as coisas estão mudando tão lentamente? Os carros que eu tenho em mente para o futuro não vão precisar de rodas, são movidos por magnetismo e fontes ecológicas de energia, serão registradas no sistema de navegação intuitiva sobre uma rede, são menos ruidosos e muito leves. A Magna (Magnética Jet Engine) é um protótipo de transporte para o futuro distante. É um supercarro, uma explosão de energia. Desperdício de energia e poluição são coisas do passado. Todas as coisas no futuro vão trazer uma ótima eficiência. O mundo não parece tão diferente em 2100, mas sim a nossa forma de interagir com ele. Os combustíveis fósseis serão extintos, as estradas serão fechadas, mais de 10 bilhões em todo o planeta - talvez 20 bilhões - vão precisar de muita criatividade e mente aberta para sobreviverem. São Paulo tem dezenas de parques - nem todos tão funcionais, nem todos bem conservados, nem todos muito usados. O que um parque precisa ter para conseguir atingir plenamente suas funções? Quais são essas funções? Arquitetura, arte e planejamento urbano podem fazer um impacto social e estrutural sobre um flagelo visual dentro da cidade. Um parque pode ser um estimulador da comunidade, da vida nas grandes cidades - onde o terreno é escasso e as pessoas têm de procurar uma mancha verde no centro da cidade. Parques podem fazer as pessoas conviver, em vez de recolherem-se em seus quintais. A principal função de um parque é conectar pessoas em uma comunidade, literal e figurativamente. Visitantes devem descobrir o parque como um local de contemplação e silêncio, mas também como um lugar onde eles podem encontrar-se e interagir com os seus vizinhos. Se pudesse escolher um projeto para fazer em São Paulo, qual seria?A arte pública, a instalação. Eu adoro a reação do povo, os sorrisos em seus rostos enquanto caminham sob a escultura e vivenciam a instalação. Tem a capacidade de melhorar a vida social, em áreas onde as pessoas não falam mais uns com os outros. Vejo isso como um grande ímã social e energético. A escultura foi concebida para evocar emoções, a faísca conversa, para fazer parar as pessoas nas suas faixas. Ela oferece às pessoas um momento para redefinir as suas mentes e reavaliar as suas percepções sobre o que está acontecendo na sociedade.

Edison Veiga, de O Estado de S.Paulo,

24 de outubro de 2008 | 00h43

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