Entrevista com o arquiteto Maurício Queiroz

Maurício Queiroz é formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie de São Paulo e pós-graduado pela Politécnica de Catalunha, em Barcelona, onde trabalhou com a Mapasa, empresa de comunicação visual que participou da preparação das Olimpíadas de Barcelona 92. De volta ao Brasil, inicia seu próprio negócio atuando nas áreas de arquitetura, gerenciamento e design de interiores residenciais e comerciais.  Maurício realizou projetos para a Mont Blanc, Jóias Vivara, Phytoervas, Dryzun e Etna, entre outros. Recentemente foi convidado para projetar a maior rede de relojoarias de luxo de Portugal, a Boutique dos Relógios. Ele também foi um dos arquitetos convidados a criar "suítes design" no WTC Hotel, em São Paulo. A suíte "Milk", projetada por ele, ganhou as páginas da Wallpaper, que junto com a Fortune Magazine promovem o prêmio "Best Business Hotels", como exemplo de um dos lugares top no mundo para se hospedar durante turismo de negócios na cidade. Seus projetos foram apresentados em mostras como Casa Cor 2004, 2005 e 2007; Brastemp Gourmet e Casa Cor Hotel WTC. www.mauricioqueiroz.com.br - Já esteve em São Paulo (quando)? Como definiria nosso design urbano?Vivo em São Paulo há 40 anos. O design urbano paulista e caótico. Por um lado, o governo não tem verbas para direcionar, aprovar ou incentivar a inovação tampouco a renovação urbana. Parte da verba arrecadada muitas vezes atende a intenções eleitorais e políticas. A iniciativa privada tem recursos para investir e os utiliza, porém com interesses comerciais. Algumas vezes culturais ou na forma de bom design. - Desde 2006, há uma lei em São Paulo que proíbe publicidade exterior. Em sua opinião, essa é uma boa solução para melhorar o aspecto visual da cidade?Sim  - Essa mesma lei trouxe um efeito colateral: fachadas mal conservadas de prédios velhos ficaram à mostra, escancarando uma feia realidade. Em sua opinião, como isso pode ser solucionado?Estamos no meio do processo. Existe um ditado chinês que diz que devemos bater no mato para as cobras aparecerem. A continuação seria o incentivo a proprietários e empresas a restaurar. - Em uma cidade que restringe tanto a publicidade exterior, como as empresas deveriam agir para reforçar suas marcas?As comunicações nas fachadas não foram eliminadas, e sim regulamentadas. O que não nos falta hoje são meios de comunicação. Internet, mídia indoor (até em elevadores), existem vários formatos que não nos obriga a mascarar a cidade. - Em termos de design, quais são (e onde funcionam) as melhores soluções para o mobiliário urbano?De forma genérica, o mobiliário que e feito levando se em consideração quem o utiliza. Curitiba é um bom exemplo.- Se você fosse convidado para desenhar os pontos de ônibus de São Paulo, como seria o projeto? Quais seriam suas principais preocupações?Seguro. Não sei se todos tem consciência de o que significa esperar um ônibus em São Paulo às 02 horas da madrugada.Interativo e informativo. O sistema de transporte público paulista é precário, e trata se de uma das maiores metrópoles do planeta. Para determinados locais temos que utilizar três ônibus e duas baldeações de metrô. Para quem faz o trajeto pela primeira vez, e o mesmo que um rally sem co-piloto.Plasticamente maravilhoso. Todos gostam e se emocionam com formas belas. Independente do contexto. Numa cidade caótica, mais ainda. - Muito se fala em sustentabilidade hoje em dia. Como mesclar projetos eficientes em termos de urbanismo com tecnologias verdes? Por que tais projetos ainda são tão mais caros?Não é difícil. Mas culturalmente não é necessário. Vai levar algum tempo ate que se torne imprescindível na cultura e no projeto que é executado. Foram proibidas e posteriormente abolidas as telhas de fibrocimento com amianto. Mas o mercado não parou por isto. Se adaptou. Quanto a custos, tem o preço alto pela baixa escala. Com o tempo tende a mudar. Empresários muitas vezes perguntam se o que especificamos é o mais barato. Pergunto a ele, então, se o seu automóvel, o seu sapato, a sua casa, se é o mais econômico que existe. Freqüentemente a resposta é não. Porque existe um benefício. Materiais sustentáveis ainda são, na maioria das vezes, mais caros. Mas tem um valor agregado imenso. Basta que a sociedade enxergue isto: tem um valor agregado. Enorme. - São Paulo tem dezenas de parques - nem todos tão funcionais, nem todos bem conservados, nem todos muito usados. O que um parque precisa ter para conseguir atingir plenamente suas funções? Quais são essas funções? Transporte, segurança, atividades de interesse da população, beleza. Nesta ordem de importância. - Em sua opinião, qual é a maior beleza de São Paulo? E a coisa (ou lugar) mais feia?Maior beleza: o centro histórico. Hoje sujo, violento, degradado, mas esconde prédios lindos, viadutos históricos, praças cheias de história. é um diamante a ser lapidado. O mais feio: os corredores viários, como a Avenida Santo Amaro, Radial Leste e Minhocão. Foram atropelados pelos automóveis, têm fraturas expostas. - Se pudesse escolher um projeto para fazer em São Paulo, qual seria?Ampliação do metrô de São Paulo. Não precisaríamos mais de rodízio, menos poluição, devolveríamos as ruas para os pedestres. E convidaria os melhores designers do mundo (brasileiros e estrangeiros) para um concurso para projetar as estações. Funcionalidade com beleza. Pluralidade com democracia.

Edison Veiga, de O Estado de S. Paulo,

24 de outubro de 2008 | 00h40

Tudo o que sabemos sobre:
Maurício Queirozdesignurbanismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.