Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Entre os detidos está sobrinho de Beira-Mar

Baleado, ele alega inocência; testemunhas relataram ontem momentos de pânico

Fábio Grellet e Tiago Rogero / RIO, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

Entre os quatro suspeitos de participar do ataque ao ônibus no centro do Rio está Jean Júnior, sobrinho do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e o único dos quatro suspeitos que não tem antecedentes criminais. "Fizemos um levantamento da vida pregressa dele e dos familiares e constatamos que a mãe do suspeito é irmã do Fernandinho Beira-Mar", disse a delegada assistente Sânia Cardoso.

O advogado do suspeito, Marco Aurélio Santos, apresentou na 6.ª DP um prontuário médico como "prova" de que o cliente não estava na capital no momento do crime. No documento, que trazia o nome do Hospital Santa Branca, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, constava que Jean foi atendido às 20h37 de terça. "Como ele poderia estar em dois locais ao mesmo tempo? Estava brincando com a arma e acabou atingindo a si mesmo na virilha. Procurou atendimento na unidade e, como não tinham urologista, pediram que fosse ao hospital em Copacabana", disse o advogado.

No entanto, segundo a delegada, qualquer documento agora deve ser apresentado à Justiça, pois o auto da prisão em flagrante já foi encaminhado. "Jean foi quem roubou a arma do policial, que o reconheceu no hospital e veio até a delegacia para formalizar o auto de reconhecimento."

Relatos. Ontem, mais calmas, as testemunhas da ação puderam relatar melhor o que aconteceu. "Se o policial não tivesse entrado, ninguém ficaria ferido", disse um analista de rede, de 40 anos, que pediu para não ser identificado. "Os assaltantes não atiraram de jeito nenhum. Os tiros vieram todos do lado de fora. Foi aterrorizante", contou outra passageira, Mara dos Santos, de 52 anos. A versão sobre os disparos, confirmada no fim do dia pela perícia, esteve presente nos depoimentos de todos os passageiros.

Após buscar na delegacia a mochila esquecida no ônibus, o analista falou ontem sobre os momentos de tensão dentro do coletivo. Sentado na penúltima fileira, ele viu quando os quatro assaltantes entraram, na frente da Central do Brasil. "Não parecia haver nada de errado. Um deles se sentou atrás de mim. Percebi que estava um pouco nervoso, mas era só. Puxou a cortina e encostou a cabeça na janela, como se fosse dormir", contou. Segundo ele, não houve anúncio de assalto em nenhum momento.

Ao passar na frente do câmpus da Universidade Estácio de Sá, na Avenida Presidente Vargas, o motorista Wagner Silva França, de 40 anos, viu dois PMs. Parou, ligou o pisca-alerta e desceu. Relatou aos militares a entrada de quatro passageiros "suspeitos" no ônibus e um dos PMs subiu. Pediu aos passageiros que ficassem de pé e colocassem os pertences por cima dos bancos. "Foi nesse momento que os bandidos sacaram as armas. Um deles tomou a arma do policial e o expulsou do ônibus", disse o analista de rede.

Em pânico, alguns passageiros também conseguiram desembarcar. Dois assaltantes fugiram: Clerivan da Silva Mesquita, de 19 anos, fez uma passageira refém e Jean Júnior da Costa de Oliveira, de 21, se passou por vítima. Como o motorista abandonou o ônibus, os assaltantes restantes escolheram um passageiro para dirigir o veículo.

"Um dos bandidos perguntou qual de nós sabia dirigir, e demorei para responder. Um outro rapaz estava tremendo, então ele olhou para mim e disse que seria eu. Nunca havia pilotado um ônibus antes, mas quando expliquei isso o assaltante disse: "É hoje que você vai aprender"", contou o técnico em informática Hélio Gomes da Mota, de 30 anos.

Foragido. Clerivan é o único foragido. Após fugir do coletivo, ele sequestrou um casal em um carro e os obrigou a levá-lo até Manguinhos, onde mora. A área é dominada pela facção criminosa Comando Vermelho.

OS 3 ERROS DA AÇÃO, SEGUNDO MANUAL DA PM

PM entra sozinho no ônibus e é dominnado

O Manual de Abordagem a Veículos e Edificações da PM estabelece que a abordagem deve ser feita "em local que disponha de efetivo de apoio". Os policiais são instruídos a agir com cautela e só devem embarcar para realizar revistas em dupla. "A ação conjunta faz parte dos ditames necessários para a ação policial."

Bloqueio policial é furado pelo ônibus

A barreira formada por duas viaturas não foi suficiente para bloquear totalmente a avenida, permitindo que os assaltantes escapassem. O manual requer que os carros sejam dispostos em ângulos de 45 graus diante do veículo abordado e o policial "esteja atento quanto às possíveis rotas de fuga".

Tiros

As instruções são claras: "Em caso de perseguição, NÃO ATIRE em direção ao carro de fuga, evitando o risco de atingir pessoas alheias àquela situação, possíveis reféns a bordo do veículo, assim como a pessoa em atitude suspeita". A polícia afirmou que os agentes tentavam atingir os pneus do carro, o que também não é recomendado.

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