ENTRE AS VÍTIMAS, JOVENS BOLSISTAS

Morreram 65 alunos de Departamentos de Ciências Rurais - mais da metade, pesquisadores de iniciação científica

Denize Guedes, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h03

A tragédia de Santa Maria golpeou a principal atividade econômica do Rio Grande do Sul, a agropecuária, ao matar 68 jovens ligados às Ciências Rurais em faculdades da região. Dos 65 deles que estudavam na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mais da metade era bolsista de iniciação científica.

"Apenas no Departamento de Solos, foram seis jovens. Estavam ainda tomando contato com os grupos de pesquisa, 'lavando vidro', como a gente diz aqui (cuidando também da limpeza dos materiais do laboratório)", conta o diretor do Centro de Ciências Rurais da UFSM, Thomé Lovatto. "Tinham muita motivação para apresentar trabalhos em congressos, escrever artigos técnico-científicos."

Ao todo, no centro, morreram 26 universitários de Agronomia (dez só do 2.º semestre), 16 de Tecnologia de Alimentos (dez também do 2.º semestre), 15 de Medicina Veterinária, cinco de Zootecnia, dois de Engenharia Florestal e um mestrando de Agronomia. "É uma situação drástica, uma cicatriz que vamos levar para o resto de nossa história", diz Lovatto.

Do 3.º semestre de Agronomia da UFSM, Paula Batistela Gatto, de 19 anos, andava feliz: seu artigo sobre controle de plantas daninhas em plantações de arroz havia sido eleito entre os 20 melhores da jornada acadêmica da UFSM. "Estava muito empolgada porque apresentaria o trabalho em uma jornada acadêmica nacional, no Recife", diz a agrônoma Mônica Paula Debortoli.

Voluntária. Paula era pesquisadora voluntária do Departamento de Agronomia havia dois anos, assim como Lucas Foggiato, de 21 anos, coautor do artigo de Paula. Colegas de 3.º semestre, os dois compartilhavam a paixão pela lavoura: ela vinha de Tapera e de uma família de agricultores de soja e milho; natural de Dom Pedrito, ele cuidava com o pai da lavoura familiar de arroz.

Ambos trabalhavam em pesquisas com a colega de turma Andrise Farias Nicolletti - que havia feito 20 anos na quinta-feira anterior ao incêndio na Kiss, no domingo. "Os dois tinham ido comemorar o aniversário da Andrise", conta Mônica, entre pausas.

Morreram oito jovens do 3.º ano do curso. Lovatto diz que recebeu esses dias os pais de um deles, Ericson Ávila dos Santos, de 23 anos. "Queriam ver a várzea de arroz irrigado de que ele falava tanto. Era seu lugar preferido."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.