Entradas falsas, arrastões, VIPs... Chamem o Mickey!

Como o próprio nome diz, o Rock in Rio é um evento carioca, nascido em uma cidade onde o visitante é recebido assim:

PAULO SAMPAIO , ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2011 | 03h04

- Táxi pra onde, meu patrão? Ipanema? É setenta real.

- Setenta? (R$ 30 seria caro)

- Pro senhor que é freguês, a gente faz por cinquenta.

Essas mesquinharias não deveriam atingir o festival, concebido, segundo sua vice-presidente e produtora, Roberta Medina, para ser um misto de parque de diversões e arena de shows.

Roberta foi criada na Barra da Tijuca, região da zona oeste do Rio, e essa é uma informação importantíssima para entender o conceito do Rock in Rio.

A Barra criou uma referência mais limpinha da cidade. Ali, não se vê favela, a arquitetura é inspirada na de Miami, a frota de carros é mais nova, o morador é tido como emergente e quase todos os escritórios e prédios têm nomes em inglês. Um dos shoppings, o New York City Center, é decorado com uma imensa estátua da Liberdade.

Confessadamente fã da Disney e do Mickey, Roberta produziu um festival 'bem Barra'. Forrou o espaço com grama sintética, contratou atrações comerciais, montou um cenário de casinhas coloridas como as de uma rua de Nova Orleans, batizada ali de Rock Street, instalou praça de alimentação, uma roda gigante e uma montanha russa.

Talvez não tenha levado em conta que os frequentadores dos shows não eram exatamente como os bonequinhos da maquete de seu sonho. Na Disney de Roberta, teve gente fazendo xixi pelos cantos, falsificando ingressos, furtando carteiras, e, do lado de fora, promovendo arrastões.

Nem tudo foi limpinho e alegre. Policiais civis que circulavam no camarote VIP revelaram no penúltimo dia que os problemas de segurança eram crescentes Na mesma semana, a notícia da exoneração do comandante da PM rivalizou na mídia com o festival.

Mas a corrupção e os conchavos escusos nas instituições públicas cariocas não atingiram a Disney, diz Roberta. Ela afirma que não fez nenhuma concessão a escambos. Nada de 'presentinhos' para conseguir liberações. "Eu não participo de nada assim. Não seria eu aqui", disse.

É verdade que o governador e o prefeito tinham camarotes especiais na ala VIP. Ali, e nos espaços exclusivos montados pelos patrocinadores, algumas celebridades deram as caras. Suzana Vieira, Marcelo Serrado, Cristiane Torloni. Em entrevista para a TV, esta última soltou "Hoje é dia de rock, bebê", frase logo transformada em hash tag no Twitter.

No segundo final de semana, justiça seja feita, Roberta e seus assessores resolveram boa parte dos problemas do primeiro - as intermináveis filas para as lanchonetes, alguns atrasos e a confusão no transporte oferecido pelo evento.

Erigida em Jacarepaguá, também na zona oeste, a Cidade do Rock fica em um lugar tão distante do centro que o motorista de táxi não conseguia nem imaginar um preço: "Ô, meu patrão, eu me concentro mais na zona sul, faço o arroz com feijão. O senhor vai ter dificuldade de arrumar quem o leve. Provavelmente não vão cobrar pelo taxímetro."

Chamem o Mickey!

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