Jose Patricio/AE
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Enterros são feitos à noite, sob a luz de carros das famílias

Sem acordo com a Prefeitura, funcionários do Serviço Funerário prometem manter a paralisação pelo menos até segunda-feira

Felipe Tau, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

Funcionários do Serviço Funerário prometem manter a greve iniciada há quatro dias pelo menos até segunda-feira - apesar de ordem contrária do Tribunal de Justiça. Nos cemitérios, enterros atrasados já são feitos até à noite, iluminados por faróis de carros. Com a paralisação, algumas famílias demoravam até 30 horas para enterrar seus parentes.  

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Na noite de ontem, a reportagem do Estado flagrou quatro enterros sendo realizados depois do anoitecer no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste - na capital paulista, os enterros normalmente só são feitos até as 17 horas. Funcionários da limpeza, terceirizados, faziam às vezes de coveiros. Os familiares dos mortos eram convidados a colocar seus carros o mais próximo possível de onde ficariam as sepulturas, para poder iluminar o local.

Ninguém da administração apresentou justificativas. Os funcionários da limpeza disseram apenas que os enterros à noite foram uma forma de contornar "a fila" para sepultamentos. Como alguns casos já se estendiam havia dois dias, existia o risco de deterioração dos cadáveres. Ao notar que a situação era fotografada, funcionários solicitaram a saída do fotógrafo do Estado.

Em várias outras regiões da cidade, o cenário de atrasos era idêntico. Em alguns cemitérios, funcionários terceirizados chegaram a cavar covas em série para "adiantar o serviço".

Sem negociação. Os grevistas tomaram a decisão de seguir parados depois de não terem suas reivindicações atendidas pela administração municipal na manhã de ontem. Eles pedem 39,74% de reajuste salarial. A última proposta apresentada pela Prefeitura foi de 15% de aumento no salário-base para a jornada de 40 horas, que passaria de R$ 545 para R$ 630. "Esse aumento é falso, contempla pouquíssimos trabalhadores. A maioria já está acima dos R$ 630. Acontece que estão acima do piso por bonificação, não por aumento real", disse o secretário de Assuntos Jurídicos do Sindsep, João Batista Gomes. "Se a Prefeitura tivesse descido para nos atender, aceitaríamos negociar (e não manter a paralisação até uma próxima assembleia, na segunda-feira)", completou a presidente do sindicato, Irene Batista de Paula.

Enquanto os servidores faziam uma assembleia na frente da Prefeitura, o prefeito Gilberto Kassab (sem partido) participava da inauguração do retrato oficial de Claudio Lembo (DEM), atual secretário municipal de Negócios Jurídicos, na galeria de ex-governadores no Palácio dos Bandeirantes. Ontem, o prefeito voltou a criticar o movimento e disse buscar soluções para o transporte de corpos para cemitérios da cidade, como a contratação de emergência de funcionários.

"Eles estão afetando a vida de milhares de pessoas no momento mais difícil da vida delas. Se eles não têm essa compreensão, não merecem estar no serviço público", ressaltou Kassab. Ele voltou a afirmar que os grevistas serão punidos, mas não detalhou como.

Para que isso ocorra, o governo ainda precisará instaurar processo administrativo. As punições variam de advertência e suspensão por até 2 meses (sem salário) até demissão. "Uma punição, ainda que leve, às vezes tem consequência em promoções futuras", observou a professora de Direito da USP Odete Medauar. / COLABOROU ELVIS PEREIRA

DEPOIMENTO

Andréia dos Santos, de 33 anos, monitora de transporte escolar

"É um absurdo. Estou há 2 dias sem trabalhar"

"Meu tio morreu à meia-noite de terça para quarta-feira, mas seu corpo só foi levado do Hospital Municipal Tide Setúbal, em São Miguel, às 17h de quarta-feira. Avisaram que ia demorar, então só viemos hoje (quinta) ao meio-dia. É um absurdo. Tinham dito que ele seria liberado até as 15h45, mas até agora nada (já eram 14h). Temos enterro marcado para as 17h no Cemitério da Saudade, em São Mateus, mas não sei se vai dar. Se não der, vamos enterrar sem velório mesmo, mas queríamos enterrar o mais rápido possível para acabar logo com esse sofrimento. Estou há dois dias sem trabalhar."

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