TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Secretaria oferece R$ 50 mil por informações de assassinos de camelô; família pede justiça

Luiz Carlos Ruas, de 54 anos, foi espancando e morto na noite de domingo após tentar defender uma transexual na estação Pedro II do Metrô; velório é marcado por revolta de familiares e amigos da vítima

Alexandre Hisayasu e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2016 | 18h39

SÃO PAULO - A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) anunciou que vai pagar R$ 50 mil de recompensa para quem der informações que levem a prisão de Alípio Rogério Belo dos Santos, de 26 anos, e Ricardo Martins do Nascimento, de 21, acusados de espancar até a morte o vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas, de 54, na Estação Pedro 2.º do Metrô, no dia 25. 

A iniciativa faz parte de uma parceria da pasta com o Instituto São Paulo Contra a Violência. O valor divulgado é o máximo que pode ser pago para um denunciante. O sigilo é garantido e quem se interessar dar informações deve acessar o site da Secretaria. 

Segundo a Polícia Civil, os dois suspeitos brigaram com uma travesti e a agrediram. Ruas tentou apartar a briga, mas começou a ser espancado pela dupla. Ele chegou a correr para dentro da estação, mas não conseguiu fugir. Imagens gravadas pelas câmeras de segurança mostram que o vendedor foi agredido com socos e chutes n a cabeça e as agressões continuaram mesmo quando ele já estava desacordado. 

Nesta terça-feira, 27, a Justiça decretou a prisão temporária dos acusados por 30 dias. Segundo o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, diretor do Departamento de Capturas e Delegacias Especializadas (Decade), um dos suspeitos estava urinando próximo do metrô quando foi repreendido por uma travesti. “Começou uma discussão e logo os dois suspeitos começaram com as agressões”, disse.

Gonçalves contou que Ruas tentou apartar a briga, mas acabou agredido. “Estamos com 35 investigadores trabalhando na captura desses bandidos. Todos os esforços estão sendo feitos para botar esses dois moleques na cadeia. São uns covardes”, afirmou o delegado.

À tarde, o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, e integrantes do grupo LGTB, Família Stronger, fizeram um protesto na estação Pedro 2.º e, depois, se reuniram com o delegado Gonçalves. “Houve um assassinato, um crime bárbaro”, disse o padre.

“Eles perseguiram um travesti. Depois, espancaram um negro, pai de família, até a morte. Se não exigirmos Justiça, nada será feito”, disse Luiz Fernando Uchôa, integrante do grupo.

O advogado dos acusados, Marcolino Nunes Pinho, informou que irá apresentar os clientes à polícia se a prisão for revogada pela Justiça. Nesta quarta-feira, ele irá fazer o pedido. Na versão dos acusados, Santos teve o celular roubado e começou a discutir com um travesti que teria participado do roubo. “O Alípio contou que o Ruas deu uma garrafada na cabeça dele e aí começaram as agressões”. Na versão do defensor, não houve assassinato, mas uma “lesão corporal seguida de morte.” 

Sepultamento. Sob um forte clima de revolta, o ambulante Luiz Carlos Ruas, de 54 anos, foi sepultado no fim da tarde desta terça-feira, 27, no cemitério Vale da Paz, em Diadema, Região Metropolitana de São Paulo. Familiares e amigos expressaram indignação com a agressão contra o homem e cobraram, aos gritos de “justiça”, resolução rápida da investigação e prisão para a dupla flagrada cometendo o crime na noite de domingo, 25.

Pessoas que conviviam diariamente com Ruas destacaram a boa relação que ele mantinha com os moradores de rua da região, fornecendo alimentação a eles com frequência. A personalidade generosa foi ressaltada como parte da rotina do ambulante. “Ele acordava cedo todos os dias e dava cafezinho e comida aos mendigos. Sempre foi um cara de paz e que ajudava a todos”, disse a dona de casa Maria de Fátima Ruas, de 53 anos, irmã da vítima. 

Chorando, Maria cobrou prisão para os envolvidos na agressão. “Esses caras que fizeram isso são monstros, esse é o termo. Como eles estão se sentindo diante de uma maldade dessa?”, questionou. “No dia de Natal, em vez da confraternização, do abraço, estamos sepultando o nosso irmão, um herói.” Além dela, Ruas tinha outros dois irmãos e era casado havia 32 anos.

Morador do Brás, o ambulante costumava acordar às 5h30 para trabalhar no ponto nas imediações da Estação Pedro II, da Linha 3-Vermelha do Metrô, rotina que se repetia nos últimos 20 anos. Segundo familiares, ele havia decidido prolongar a jornada de trabalho na última semana visando a quitar uma dívida de IPVA. O seu carro havia sido recuperado pela polícia após um roubo sofrido, mas estava detido em razão do débito. 

A sequência de agressões que sofreu obrigou que seu corpo fosse velado com o caixão fechado. “Meu tio morreu defendendo uma vida. Não entendo o motivo para isso ter acontecido, ele ter apanhado”, disse o sobrinho Alexsander Ruas, enquanto chorava segurando uma fotografia do tio. 

Ao seu lado, outros familiares se juntavam para consolá-lo e novamente cobrar justiça. “Ele cuidava do povo. Tem que morrer quantos que nem ele para que se faça alguma coisa?”, disse Reginaldo Pereira, de 38 anos, marido de uma das sobrinhas de Ruas. 

Familiares também reclamaram da estrutura de segurança do Metrô. Imagens do circuito interno da estação mostram o momento em que o ambulante busca socorro no local, mas acaba alcançado pelos criminosos e espancado. “Ele ficou apanhando por mais de dois minutos e não tinha ninguém para chegar lá e ajudá-lo?”, perguntou a sobrinha Janaína Ruas. 

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