Erika e Diogo/BASSO FOTOGRAFIAS
Erika e Diogo/BASSO FOTOGRAFIAS

Ensaios registram 'gravidez invisível'

Pretendentes à adoção fazem sessão de fotos para marcar espera e aplacar a ansiedade

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 05h00

O olhar de emoção nas fotos denuncia: eles estão à espera de um filho. Mas esqueça o ultrassom e o parto. Casais na fila de adoção vivem um pré-natal diferente, que pode durar mais que nove meses. Para aplacar a ansiedade, eles convocam fotógrafos e registram em retratos a expectativa da “gravidez invisível”.

Antes mesmo de conseguir a habilitação para adotar, mas já decidida de que queria ser mãe, a enfermeira Ludimila Oliveira, de 38 anos, quis fazer cliques da maternidade simbólica. “Quero que meu filho saiba, quando chegar, que fiquei esperando por ele”, diz ela, que registrou a “gravidez invisível” no ano passado. 

Nas fotos, Ludimila, que é solteira, aparece abraçada a um urso de pelúcia e rodeada de sapatinhos de diversos tamanhos – na fila pela adoção de um menino de 0 a 3 anos, ela ainda não faz ideia se seu filho chegará como um bebê de colo ou uma criança que já corre para lá e para cá. 

Habituada a fotografar gestantes, Christine Oliveira teve de se reinventar. “Foi o primeiro ensaio desse tipo que fiz. Nunca tinha nem visto”, conta ela, que fotografou a “gravidez” de Ludimila. A dificuldade, diz, foi traduzir o sentimento da espera. “Não havia um ‘objeto’ (como a barriga). Tive de trabalhar com emoções. Ela se emocionou e eu automaticamente sentia isso”, conta Christine.

Para se preparar para uma gravidez que pode durar até anos, além do ensaio de fotos, Ludimila faz terapia e até mudou os hábitos alimentares. “Emagreci 15 quilos. Cuido da minha saúde porque sei que agora sou mãe”, conta. “Quis fazer um álbum alegre, sorrindo, para ele ver que, embora esteja ansiosa, estou curtindo esse momento. E uma forma de lidar com essa ‘saudade’ é olhar meu álbum, lembrar do dia do ensaio.”

Camille Cruz, de 39 anos, nem podia mais ouvir o telefone tocar que já se imaginava recebendo notícias dos seus filhos. A pedagoga, que ficou na fila durante mais de dois anos e meio, encheu a casa em maio deste ano com três irmãos – uma menina de 7 anos e dois meninos, de 6 e 5.

Para marcar o segundo aniversário de habilitação – quando o casal fica apto à adoção após uma série de documentações e cursos –, Camille e o marido, Marcelo Cruz, decidiram fazer um ensaio de fotos em um playground. “No momento escolar, quando é pedida uma foto da mãe grávida, eles vão poder levar o álbum para a escola”, conta. O casal não pode ter filhos biológicos.

Para Camille, a espera longa elevou a ansiedade, mas também faz crescer o amor de mãe. “Minha barriga não, mas meu coração crescia cada dia mais. Até uma amiga me disse: ‘Você é a grávida mais grávida que conheço’.” Rodeado pelos pequenos, o casal agora planeja novas poses em breve, no mesmo lugar. “Vamos fazer outro ensaio com toda a família”, diz Erika Basso, que fotografou Camille. 

Tempo. A designer de interiores Denise Marques, de 29 anos, conta que a adoção foi decidida após dificuldades para engravidar. “Tentava ser mãe havia sete anos, mas vi que não seria tão simples. Sofria muito. Quando tomamos a decisão, fiquei mais tranquila”, diz. 

Para simbolizar o tempo de espera, ela e o marido, o publicitário Rafael Chioderoli, de 35 anos, usaram uma ampulheta no ensaio de adoção que fizeram no ano passado. As fotos chegaram até o menino, de 3 anos, quando ele ainda estava morando em um abrigo. 

“A assistente social mostrou (o ensaio) para ele e perguntou se queria aquele casal para ser os pais dele”, conta Denise. “E ele balançava a cabeça afirmando que sim.” 

Em casa desde fevereiro, após uma espera de 1 ano e 9 meses, o garoto alterna beijos e abraços com birras e manhas – como toda criança da idade dele. “Me sinto como se sempre tivesse sido mãe”, diz Denise. 

Rituais. Para Tatiany Schiavinato, psicóloga e especialista em casos de adoção, rituais como as fotos ajudam na preparação das famílias. “Os ensaios fazem parte desse processo como uma elaboração da gestação que não vai acontecer fisicamente”, explica. 

“Orientamos que os pais montem um álbum para contar essa história antes de a criança chegar. Para ela, ajuda a sentir que é amada e desejada”, recomenda Tatiany. A psicóloga ainda ressalta a importância de participação dos pretendentes em grupos de apoio e auxílio psicológico para lidar com a espera durante o processo de adoção.

Lei acelera trâmite. Em novembro de 2017, o presidente Michel Temer sancionou com vetos uma lei que pretende criar mecanismos para acelerar o processo de adoção de crianças e adolescentes. 

A lei estabelece que a permanência de crianças e adolescentes em abrigos não poderá se prolongar por mais de um ano e meio. Hoje, na prática, há casos de crianças abrigadas com poucos meses que permanecem nesses locais até 18 anos. 

O novo texto ainda dá prioridade à adoção de grupos de irmãos e de meninos e meninas com deficiência ou doença crônica. A norma tenta acelerar o processo justamente para crianças e adolescentes que não recebem a preferência dos pretendentes à adoção.

ETAPAS DA ADOÇÃO:

Vara da Infância

Pessoas que querem adotar devem procurar a Vara de Infância e Juventude do município e juntar os documentos necessários, entre eles atestado de sanidade e certidões cível e criminal.

Cursos

É preciso passar por cursos de preparação, avaliações, entrevistas e visita domiciliar.

Definição de perfil

O pretendente aponta o perfil da criança desejada. É possível escolher sexo, idade e estado de saúde, entre outros. O perfil pode ser alterado durante o processo.

 Habilitação

Após pareceres e decisão judicial, o pretendente é inserido nos cadastros de adoção. Ele estará habilitado para adotar, mas a espera pode ser longa.

Encontro

Respeitando a ordem da fila e o perfil escolhido, o pretendente é avisado sobre uma criança ou grupos de irmãos disponíveis para a adoção. A partir daí, são feitas aproximações até que possam ser levados para casa, com guarda provisória. 

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