NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Enquete indica que 50% dos roubos de bike não levam a BO

Levantamento de 6 entidades de cicloativistas mostra que falta de esperança em achar bicicleta e burocracia ampliam subnotificação

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A assistente administrativo Ana Fedickzo, de 36 anos, se arrepende de não ter registrado boletim de ocorrência após ter a bicicleta furtada na porta de casa. Hoje, dois anos depois, diz que “perderia tempo” por achar que é preciso constar nas estatísticas. Na época, além de acreditar que a bike jamais seria localizada, pensou também: “Para a polícia, é só mais uma bicicleta”. 

Opinião semelhante teve o designer e ilustrador Gil Riquerme, de 43 anos, também vítima de furto, mas em via pública, no ano passado. “É só mais uma bike. Não terá volta. Todo mundo me desencorajou a registrar.” A impressão também se repete no caso do auxiliar de cozinha Clayton Francisco dos Santos, de 38 anos, que na época do roubo, há cerca de oito anos, morava na periferia de São Paulo. “Não ia adiantar nada. Principalmente por ser uma bicicleta só. E ainda mais por ter sido em bairro pobre.”

Ana, Riquerme e Santos são exemplos de um padrão: por achar que não adianta ou porque o processo de registro de boletim de ocorrência é demorado e burocrático, parte das vítimas de roubos e furtos de bicicleta não oficializa o crime.

A situação é retratada em um levantamento espontâneo feito pelas organizações de cicloativistas Ciclocidade, Aromeiazero, Aliança Bike, CicloBR, Bike é Legal e Vá de Bike. Em três semanas, elas ouviram, por meio de questionário, 331 pessoas da capital, da Grande São Paulo e do interior paulista que tiveram bikes furtadas ou roubadas, e descobriram que pouco mais da metade (51,1%) das vítimas não fez boletim de ocorrência. Um terço dos participantes teve a bike roubada em 2016 e os demais, em anos anteriores.

O número, sem critérios científicos, supera a estimativa de subnotificações da Secretaria da Segurança Pública (SSP) para crimes de subtração de bicicleta. Em reunião de grupo de trabalho com cicloativistas, a SSP informou que trabalha com perspectiva de 30% de subnotificações. Questionada, a pasta não informou oficialmente a porcentagem estimada. O resultado do levantamento foi entregue à SSP pelos cicloativistas.

Entre as vítimas que não registram ocorrência, 62,1% afirmaram que não o fizeram “porque não adiantaria nada” e 29,7% “porque é muito demorado e burocrático”. Segundo Albert Pellegrini, membro da Ciclocidade e um dos coordenadores do grupo de trabalho da SSP, o objetivo do levantamento era descobrir o que impede as pessoas de registrarem boletim de ocorrência. “O resultado é o que esperávamos: as pessoas ou não acreditam na polícia ou acham que não vai dar em nada. A realidade é maior do que os números.” 

Investigação. Especialista em segurança pública, o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva Filho explica que, embora crimes envolvendo bicicleta sejam considerados “um problema menor”, a polícia deve investigar, especialmente, a atuação de grupos específicos em regiões com sequência de roubos ou furtos. “A polícia não pode se negar a dar resposta. Casos isolados, ela (polícia) não vai fazer mesmo investigação porque não tem tempo para isso. Mas uma sequência de roubos de bicicleta na Avenida Sumaré, às quintas e sextas à noite, por exemplo, tem de ser apurada.”

Segundo Pellegrini, o próximo passo será a realização de campanhas para conscientizar ciclistas sobre a importância da anotação do número de série (chassi) da bicicleta. No equipamento, essa informação fica no quadro próximo do guidão.

De acordo com a SSP, na região da Sé, o 1.º DP registrou a apreensão de 15 bikes roubadas em janeiro e fevereiro. “Ao todo, foram esclarecidos 61 crimes contra o patrimônio e 44 pessoas foram presas.” Em relação a Butantã e Pinheiros, a Polícia Civil diz que tem mapeado os casos, principalmente nos arredores do Parque Villa Lobos e da USP. No primeiro bimestre de 2017, 166 pessoas foram presas nas duas regiões.

Campanha de esclarecimento está prevista

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a inclusão do número de série de bicicletas nos BOs possibilitou à Polícia Militar, durante o patrulhamento, verificar se as bicicletas em poder de suspeitos foram roubadas ou furtadas. Isso se tornou possível também para o cidadão, desde 25 de janeiro deste ano, pela página da SSP: Consulta Bicicleta. Segundo a pasta, o campo já teve cerca de 6,3 mil acessos desde a criação. 

“A ideia veio de um grupo de trabalho, composto por autoridades e cicloativistas”, afirma o governo. No dia 16, houve reunião desse grupo e “se definiu que os cicloativistas farão campanha de divulgação entre os associados para que registrem as ocorrências de modo a reduzir subnotificação e permitir a identificação de pontos críticos”. Também se propôs “campanhas para que registrem o número de série das bicicletas nos boletins de ocorrência e, principalmente, para que não comprem peças e bicicletas de origem duvidosa, denunciando locais irregulares”. 

COMO AGIR

Em caso de roubo de bicicleta sem agressão física e em via pública, é possível registrar boletim na delegacia eletrônica (www.ssp.sp.gov.br/nbo/). Informando o número de registro (chassi), é possível rastrear o dono da bike na hipótese de apreensão do objeto

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