Raquel Brandão/ Estadão
Raquel Brandão/ Estadão

‘Enquanto um te humilha, dez apoiam’

Há 30 anos em São Paulo, o mineiro Paulo foi morar nas ruas há 14 anos; hoje, mora no Vale do Anhangabaú, que ajudou a construir em 1989.

O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Paulo

“Aqui eu sou palmeirense, mas lá em Belo Horizonte eu sou Cruzeiro. Eu vim pra São Paulo trabalhar há 30 anos. Vim só com a passagem. Trabalhei de pedreiro por mais de 10 anos. Vim parar na rua por causa de um problema que eu tive. Processei o advogado por uma causa trabalhista em 2003 e a polícia do Brasil inteiro está atrás de mim. Entre albergue e rua tem mais de 14 anos, mas há 12 que é só rua.

Trabalhei na construção disso aqui, que era avenida, em 1989. Eu gostava de São Paulo como era quando eu cheguei aqui, quando você trabalhava pra comer. Hoje em São Paulo ninguém quer saber de trabalhar mais não. ‘Ah, paga pouco.’ Mas eu já trabalhei e já vi pessoas trabalharem a troco de comida. Esse negócio de entidade só destrói a vida da pessoa. Deveria ter uma lei que obrigasse a pessoa a trabalhar a troco de comida. Porque hoje você pode trabalhar a troco de comida, amanhã você pode estar trabalhando para ganhar milhões.

Sair  da rua eu não sei, é complicado. Vou vivendo. O dia que chegar a hora de ir, eu vou, mas não antes. Tem pessoas preconceituosas, mas não é todo mundo também. Tem pessoas que humilham, mas você não vai julgar todos, né? Enquanto um está te humilhando, às vezes, há dez que estão te apoiando. Sempre tem as pessoas que prestam e as que não.

Se você puder agredir a pessoa na hora que tá com preconceito, eu até que agrido. Um camarada me chamou de maloqueiro e eu parti pra cima dele. Se eu tô numa vida boa e vejo a pessoa numa má situação, não posso falar isso pra ela, porque eu tô humilhando. Todo mundo tem que se respeitar.

A melhor coisa para você conhecer as pessoas é passar por isso. Se você tem uma vida farta, todo mundo é seu amigo, você nunca vai ver as pessoas ruins no meio. Você só enxerga numa situação dessa. Aí, você fala: ‘aquele fulano presta e aquele ali não presta’. O bom da vida é você ter dificuldade. Se Jesus sofreu, por que o ser humano não pode sofrer? Se eu for morrer nessa vida, eu morro feliz. Ou você acha que eu mereço uma vida de fartura? Eu não mereço nada. Eu não mereço e ninguém merece.”

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