Enfermeira fica 13 horas em 'cativeiro virtual'

Por telefone, ela foi obrigada a ir para um hotel enquanto falsos seqüestradores extorquiam seu pai

José Maria Tomazela, do Estadão

01 de agosto de 2007 | 17h07

Uma enfermeira de Sorocaba, a 92 km de São Paulo, ficou durante 13 horas da última terça-feira, como refém de bandidos que, pelo telefone celular, diziam ter seqüestrado seus familiares. Ela foi obrigada a ir para um "cativeiro virtual" - um hotel, em Votorantim -, enquanto os falsos seqüestradores extorquiam seu pai. A família fez depósitos de R$ 13 mil em contas indicadas pelos bandidos, até descobrir que era tudo uma farsa.   O drama de M. começou às 4 da madrugada, quando foi acordada por um telefonema dando conta de que seu pai tinha sido seqüestrado. O bandido pedia que seguisse à risca o que mandava se quisesse evitar a morte dele e de outros familiares. Ele pediu o número do celular e passou a falar com a vítima pelo telefone móvel, que deveria se mantido ligado. A enfermeira dormia na casa dos avós, que são vizinhos, mas não se arriscou a fazer contato com os pais, temendo pela vida deles.   Por ordem dos bandidos que se revezavam no telefone, deixou a casa em seu carro e foi a uma agência bancária onde sacou dinheiro e transferiu para a conta do marginal. Em seguida, rumou para o hotel na cidade vizinha.   Os bandidos entraram em contato com a família e fizeram o mesmo jogo, alegando que tinham a jovem em seu poder. Sem conseguir contato com a filha, o pai de M. fez vários depósitos em contas indicadas pelos falsos seqüestradores.   O seqüestro virtual só terminou às 17 horas, quando M. foi localizada. "Ela estava com o psicológico tão em frangalhos quanto vítimas que libertamos de cativeiros reais", disse o delegado Wilson Negrão, da Delegacia Anti-Seqüestro de Sorocaba (DAS).   O delegado apurou que as ligações partiram de um presídio carioca. Segundo ele, os bandidos sabiam que o celular da vítima poderia ser monitorado pela polícia, por isso obrigaram-na a sair do hotel e comprar outro aparelho.   Golpe   Segundo Negrão, o golpe do falso seqüestro voltou a se intensificar nos últimos dois meses. Um monitoramento feito pela polícia com autorização judicial indica que os bandidos estão fazendo, só no Estado de São Paulo, cerca de 300 tentativas de extorsão por dia, a partir dos presídios cariocas. A arrecadação com o golpe pode chegar a R$ 1 milhão por mês.   "Apesar de todos os alertas, as pessoas cedem aos bandidos, pois a pressão que fazem é insuportável", disse o delegado. Desde as primeiras ocorrências, em 2004, a equipe do DAS de Sorocaba foi três vezes ao Rio para investigar o esquema. Em duas ocasiões, com o apoio da polícia carioca, flagrou bandidos na prática do crime dentro das celas. Apesar disso, as ligações continuaram e já causam mais do que prejuízos materiais.   No último dia 26, o vendedor de queijos Domingos Lourenço, 62 anos, de Sorocaba, teve um ataque cardíaco e morreu depois de receber uma ligação de bandidos que, supostamente, tinham seqüestrado sua filha. Para o delegado, a solução seria a Secretaria da Administração Penitenciária do Rio aumentar o rigor na inspeção das visitas e instalar bloqueador de celular principalmente no presídio Evaristo de Moraes, também conhecida como Galpão da Quinta, de onde sai a maioria das ligações.   "Seria uma forma de proteger a sociedade de um crime que se tornou epidêmico e já atinge todo o Brasil." O delegado não exime as operadoras de responsabilidade. Num dos casos, a conta do celular usado pelo bandido tinha como endereço o próprio presídio. As quadrilhas recebem ajuda externa, já que alguém se incumbe de abrir as contas em bancos e sacar o dinheiro.   O pai de M., que é advogado e pediu para não ser identificado, pretende processar o Estado do Rio que, segundo ele, tem responsabilidade pelo que fazem os presos sob sua guarda. "Os bandidos ficaram 13 horas no celular e dá para acreditar que nenhum agente do Estado percebeu?"

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