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Energia e risco

Novo estudo da Universidade de Michigan, publicado no jornal Daily Mail da última semana, traz um alerta para os pais de adolescentes: beber muito energético pode estar associado a um maior risco de os jovens fumarem, abusarem de álcool e experimentarem outras drogas.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2014 | 02h04

A pesquisa Monitorando o Futuro, realizada com 22 mil adolescentes, aponta que beber energéticos com frequência nessa faixa etária pode, na verdade, indicar alguns traços de personalidade que trariam maior chance para o uso de outras substâncias. Assim, características como "buscar mais sensações" ou "correr mais riscos" fariam parte do arsenal psíquico desse grupo.

Segundo o trabalho, 30% dos adolescentes americanos bebem energéticos todos os dias e outros 40% ingerem refrigerantes diariamente. Uma lata de energético contém uma dose de cafeína semelhante à de duas ou três xícaras de café e pode ter uma quantidade equivalente a quase 15 colheres de açúcar. Doce e com efeito estimulante, ele é bastante tentador para muitos jovens.

Com o álcool, os energéticos são usados frequentemente para "mascarar", adoçar ou melhorar o sabor forte de alguns destilados, como cachaça, vodca e uísque. Vários trabalhos anteriores já indicaram que os jovens que fazem essa mistura tendem a beber mais e, portanto, se expor mais a riscos.

Ainda de acordo com a pesquisa, os garotos bebem mais energéticos do que as garotas, o uso é maior entre os filhos de pais separados e de famílias com menor nível de educação. Os adolescentes mais jovens bebem mais energéticos do que os mais velhos.

Esse tipo de análise trazida pela pesquisa, da associação de indicadores sociais com o uso de substâncias, pode revelar grupos de jovens que teriam, em potencial, um risco maior de beber, fumar e usar drogas e que, portanto, mereceriam mais atenção de pais, educadores e profissionais de saúde.

De forma semelhante, um projeto de pesquisa - Esse Jovem Brasileiro -, do Portal Educacional, que investiga há quase dez anos padrões e tendências de comportamento dos adolescentes de escolas particulares de todo o País, também mostra associações importantes entre alguns fatores de risco.

Independentemente da edição da pesquisa feita pelo portal, parece haver um grupo de jovens (que oscila de 10% a 15% deles) que apresenta características comuns - como viver com apenas um ou nenhum dos pais, ter uma relação muito ruim em casa, apresentar pior desempenho na escola, enfrentar dificuldades emocionais como insegurança, timidez, ansiedade e tristeza - que estão diretamente ligadas a um maior risco de beber em exagero, fumar, experimentar drogas e fazer sexo mais cedo e sem proteção.

Assim, é comum encontrar entre os jovens desse grupo essas características sociais e emocionais associadas. O difícil é definir, a distância, o que foi o desencadeante desse padrão. Nas edições anteriores, a investigação do uso de energéticos não foi feita.

A pesquisa americana conclui que, embora não seja possível dizer que os energéticos aumentem diretamente a chance de beber, fumar e usar drogas, os jovens que tomam essas bebidas com cafeína apresentam um risco de duas a três vezes maior de usar outras substâncias alteradoras do comportamento (álcool, tabaco e maconha, entre outras).

É bom lembrar que algumas mortes de jovens já foram associadas a um consumo excessivo de energéticos. Na maior parte das vezes, parecia haver uma condição cardíaca prévia, que era desconhecida e assintomática, mas que pode ter sido potencializada pelo uso excessivo da cafeína (que causa, por exemplo, algumas alterações do ritmo cardíaco). Como tudo na esfera da saúde e do comportamento, moderação e observação parecem ser importantes aliadas.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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